Chamada para o Dossiê “O engendramento humano: direitos reprodutivos, moralidades e conflitos”

2026-01-16

O engendramento humano é perpassado por diversos processos sociais. Trata-se, pois, de algo que transcende a gestação e o parto, embora também os englobe e neles encontre momentos privilegiados para reflexão. Todavia, quando nos referimos ao engendramento humano, estamos nos direcionando a uma abordagem ampla, que contempla políticas de saúde e moralidades que atuam antes mesmo do início da vida sexual e que se manifestam em plenitude também após a gestação e o parto. Pretendemos, então, refletir sobre questões de educação sexual, de direitos reprodutivos, de acesso ou negação ao aborto, de violência obstétrica, do processo de amamentação e de experiências do puerpério. Os eventos relacionados a esses fenômenos são envolvidos por dimensões sociais que englobam as perspectivas meramente técnicas ou científicas, característica dos procedimentos administrativos dos ambientes hospitalares e das organizações de saúde, comumente utilizadas para justificar determinadas ações ou decisões. Assim, nossa atenção se volta para as diferentes moralidades e representações das ações que caracterizam as disputas constitutivas desses fenômenos enquanto problemas públicos.

Dada a ampla produção antropológica sobre os temas relacionados à reprodução humana e aos conflitos que caracterizam o campo dos direitos reprodutivos, bem como aos processos que caracterizam os primeiros anos da infância, compreendemos que a organização de um dossiê sobre a temática do engendramento humano pode ter o condão de reunir trabalhos que lancem luz sobre uma temática reconhecida e ainda em franco processo de ampliação – em termos teóricos, conceituais e metodológicos. Entendemos assim que a temática do engendramento humano  permite pensar, a um só tempo, questões morais, raciais, de saúde, de gênero, de sexualidade, de maternidade, de processos reprodutivos, dos cuidados, de tecnologias e de direitos.

Ao tomar o engendramento humano como processo amplo composto por distintos eventos e perspectivas, estamos também buscando reunir dados empíricos que destaquem as dinâmicas interseccionais de classe, gênero e raça que caracterizam as diferentes formas de vivenciar os fenômenos de engendramento de novos seres humanos. Pois engendrar é gerar, é criar . E a criação se dá em contextos sociais específicos, marcados por características e questões que não são estáticas e tendem a se alterar de acordo com os contextos históricos.

Nesse sentido, é interessante frisar o contexto contemporâneo que vivemos, marcado pela ascensão de movimentos e ideais de extrema direita, não apenas no continente americano, mas em todo o globo. Tais movimentos têm encontrado no debate sobre direitos reprodutivos e políticas de gênero argumentos para serem distorcidos em suas cruzadas morais e políticas. Assim, é também importante pensar sobre a relevância dos debates sobre engendramento humano em contextos de polaridades políticas e morais da contemporaneidade.

É com o intuito de reunir trabalhos que abordem diferentes momentos e aspectos do processo de engendramento humano que apresentamos esta proposta temática de dossiê. Aqui, esperamos pensar comparativamente distintos contextos, regionais e nacionais, bem como diferentes aspectos dos processos vivenciados na experiência de engendrar novas pessoas, de modo a destacar semelhanças e diferenças entre os artigos que compõem o dossiê. 

 

Considerando os critérios de avaliação imposto às revistas científicas, poderão ser selecionados 50% artigos de doutorandos, os demais artigos devem ter autoria de, ao menos, um doutor. Todos os artigos submetidos serão submetidos à avaliação às cegas de pareceristas externos, atendendo à política da revista. Para dar conta da diversidade de abordagens teóricas e metodológicas dos diferentes campos empíricos e problemáticas a serem debatidos, serão aceitos, preferencialmente, artigos das áreas de Antropologia e Ciências Sociais, observados os parâmetros de exogenia em relação à UFF.

Organizadores: Alicia Márquez Murrieta (Instituto Mora), Stephania Gonçalves Klujsza (UFF/UFRJ) e Carlos Abraão Moura Valpassos (UFF/UENF).

Prazo: 19/04/2026.

OBS: Como temos mais de uma chamada aberta, faz-se obrigatório indicar no campo ‘Comentários aos editores’ que a submissão é para o Dossiê “Direitos Reprodutivos, Moralidades e Conflitos”.

As contribuições podem ser enviadas até 19 de abril de 2026 pelo sistema eletrônico da revista: https://periodicos.uff.br/antropolitica/about/submissions#onlineSubmissions