Chamada para o Dossiê “Ordens domésticas, consumo e moralidades contemporâneas: ética romântica e perspectivas conservadoras na vida cotidiana”

2026-10-22

A presente chamada de artigos propõe investigar as complexas reconfigurações das domesticidades, dos padrões de consumo e das economias morais entre as camadas médias urbanas no Brasil contemporâneo. No centro desta proposta está a hipótese de que a recente sequência de transformações econômicas, políticas e tecnológicas, desencadeadas a partir do aprofundamento da crise político-institucional em 2013, que levou ao impeachment de 2016 e a subsequente consolidação de um governo conservador de caráter político-religioso no país (2018-2022) promoveu um rearranjo profundo nas articulações entre o espaço/esfera pública e o espaço/esfera privada.

Diante do desmonte continuado das redes públicas de proteção social, do esvaziamento das promessas formais de mobilidade social via educação superior e emprego estável, e da crescente precarização do mercado de trabalho, intensificada pela expansão desenfreada das economias de plataforma, da gig economy e do fenômeno da uberização, observa-se um processo sistemático de reprivatização do social. Com a perda do amparo estatal e a substituição das garantias coletivas por eufemismos do empreendedorismo individual e da economia criativa, a responsabilidade pela manutenção da coesão social, pela gestão dos riscos econômicos e pelo bem-estar foi transferida diretamente para o núcleo familiar e a esfera doméstica.

Essa transferência de encargos sobrecarregou o lar contemporâneo, convertendo-o em um território saturado de conflitos, pressões monetárias e dramas morais. A casa deixou de ser meramente o espaço de refúgio e reprodução social para se transformar em nódulo produtivo, ambiente de teletrabalho, centro logístico de consumo e vitrine de visibilidade digital. O espraiamento de pedagogias da autoajuda, da cultura de coaches e mentorias financistas, associado ao avanço do negacionismo científico e de posições antissistema, alimenta a busca por soluções puramente privadas para problemas estruturais sistêmicos.

Para compreender a profundidade desse cenário, o dossiê convida a uma articulação que abarque a dimensão etnografia, genealógica e histórica da domesticidade no Brasil. A construção da casa e da intimidade moderna nas cidades brasileiras envolveu a consolidação histórica de uma cultura de conforto e consumo, influenciada pela imprensa feminina, pelos folhetins, pela publicidade e pela teledramaturgia, moldando padrões de conduta, ideais românticos e papéis de gênero. Na contemporaneidade, essa domesticidade é reconfigurada pelas mídias digitais, manifestando-se na estetização cotidiana do lar (como no fenômeno tradwife e na influenciabilidade estética neopentecostal), onde a exibição da vida privada mescla preceitos morais, monetização e capital de visibilidade.

Contudo, a reprivatização dos riscos e a exacerbação dos papéis tradicionais de gênero possuem desdobramentos dramáticos. A sobrecarga do trabalho de cuidado não remunerado, a fadiga mental e a impossibilidade de sustentação material dos ideais de vida confortável geram uma 'domesticidade tóxica', cujo sintoma mais nefasto é o crescimento vertiginoso da misoginia, da violência doméstica e dos casos de feminicídio.

O dossiê acolhe contribuições empíricas e teórico-metodológicas que articulem consumo, domesticidade, moralidades e política, com atenção às dimensões de gênero, cuidado e governo de si, às mediações das economias de plataforma e às infraestruturas digitais de recomendação, visibilidade e monetização. São bem-vindas contribuições de Antropologia, Sociologia e Ciência Política, bem como abordagens interdisciplinares que trabalhem com Comunicação, Estudos da Religião e Economia Política das Plataformas e articulem os seguintes eixos temáticos:

  1. Economias de plataforma, precarização do trabalho e reconfiguração da vida doméstica;
  2. Ética romântica, ética do cuidado e seus usos conservadores;
  3. Consumo doméstico, economias morais e distinção simbólica;
  4. Gênero, divisão do trabalho reprodutivo e domesticidade feminina;
  5. Estetização do lar, visibilidade digital e pedagogias domésticas;
  6. Socialização política, disposições afetivas e conservadorismo cotidiano.

Bibliografia sugerida

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Considerando os critérios de avaliação imposto às revistas científicas, poderão ser selecionados 50% artigos de doutorandos, os demais artigos devem ter autoria de, ao menos, um doutor. Todos os artigos submetidos serão submetidos à avaliação às cegas de pareceristas externos, atendendo à política da revista. Para dar conta da diversidade de abordagens teóricas e metodológicas dos diferentes campos empíricos e problemáticas a serem debatidos, serão aceitos, preferencialmente, artigos das áreas de Antropologia e Ciências Sociais, observados os parâmetros de exogenia em relação à UFF.

Organizadores: Laura Graziela Figueiredo Gomes (UFF), Patricia Pavesi (UFES) e Shirley Torquato (UEMG).

Prazo: 20/01/2027.

OBS: Faz-se obrigatório indicar no campo “Comentários aos editores” que a submissão é para o Dossiê “Ordens domésticas”.

As contribuições podem ser enviadas até 20 de janeiro de 2027 pelo sistema eletrônico da revista: https://periodicos.uff.br/antropolitica/about/submissions#onlineSubmissions