Riscos e vulnerabilidades nas margens do Rio São Francisco: etnografia, escrita e marginalidade
DOI:
https://doi.org/10.22409/antropolitica2026.v58.i1.a64163Palavras-chave:
Sexualidade, Vulnerabilidade, Etnografia, Trabalho de campo.Resumo
Este artigo analisa as dinâmicas de risco e vulnerabilidade nas práticas de pegação à margem do Rio São Francisco, em Juazeiro da Bahia, a partir de uma abordagem etnográfica que se desenvolveu ao longo de um trabalho de campo contínuo. A pesquisa observa como o desejo, a precariedade e a racialidade atravessam os encontros sexuais nesse território, onde anonimato e clandestinidade operam tanto como proteção quanto como ameaça, compondo um cenário em que os sujeitos negociam constantemente sua presença e seus limites. A partir da experiência etnográfica, construída por meio de observação participante prolongada, circulação cotidiana pelas trilhas e conversas situadas com frequentadores, o estudo explora a ambivalência entre prazer e medo, desejo e exclusão, destacando como as interações são mediadas por códigos tácitos de reconhecimento que orientam aproximações, recusas e formas de manejo do risco. Frequentadores negociam sua presença e interações por meio de gestos e movimentações discretas, ajustados às condições materiais do espaço — iluminação, fluxo de pessoas, presença policial — e às próprias vulnerabilidades que atravessam seus corpos e trajetórias. Esses modos de interação revelam não apenas estratégias de proteção, mas também dinâmicas específicas de constituição do desejo, no qual a penumbra e a incerteza intensificam a experiência erótica. O artigo contribui para uma reflexão sobre sexualidade, territorialidade e vulnerabilidade ao evidenciar como práticas dissidentes se estruturam em contextos marcados por desigualdades raciais e socioeconômicas, ampliando a compreensão das experiências marginais e seus desafios metodológicos, éticos e teóricos na produção antropológica.
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