Não quero (mais) ter mais filhos: a maternidade em crise é afinal uma consequência da pandemia?
DOI:
https://doi.org/10.22409/antropolitica2026.v58.i1.a68304Palavras-chave:
Não-maternidade, Pandemia, Trabalho, Cuidado.Resumo
Após a Segunda Guerra Mundial, assistiu-se a uma acentuada explosão de nascimentos diante de maior estabilidade social. Depois de períodos de exceção, violência, mortes e extrema pobreza, poderíamos pensar que o curso da vida seria retomado, inclusive quanto ao desejo de se ter filhos. Pensando por esse prisma e olhando para a contemporaneidade, poderíamos acreditar que, com a crescente vacinação, redução da mortalidade e controle do vírus Covid-19, experimentaríamos a retomada dos nascimentos e talvez até mesmo um certo aumento em suas taxas. Mas esse, no entanto, não tem sido o cenário demográfico pós-isolamento social. Bem ao contrário, em vez de mais nascimentos, temos assistido a uma progressiva redução no desejo de se ter filhos. Este artigo pretende refletir sobre tal situação inusitada em nossa sociedade e aventar possíveis causas para sua ocorrência. Para isso, dialogará com dados estatísticos e demográficos oficialmente produzidos e com três pesquisas etnográficas realizadas com mulheres mães, pobres e abastadas, de baixa renda, entre os anos de 2020 e 2025, ao redor de suas práticas e emoções durante e após a pandemia, bem como às voltas com as práticas de cuidado entre mulheres de distintas gerações de uma mesma família em diferentes cidades e escalas. Uma delas no Distrito Federal; outra em diversas regiões do Brasil e uma última em cidades de grande e médio porte no Brasil e na Argentina.
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