“Olha a onça dele no chapéu”: a Amazônia e os guerreiros de selva do Exército Brasileiro
DOI:
https://doi.org/10.22409/antropolitica2026.v58.i3.a69086Palavras-chave:
Centro de Instrução de Guerra na Selva, Exército Brasileiro, Guerreiros de selva.Resumo
Este artigo analisa os aspectos constitutivos do cotidiano dos quartéis e da presença militar na Amazônia, especialmente no que diz respeito ao Centro de Instrução de Guerra na Selva. Ao longo deste trabalho, por meio de uma análise qualitativa do fardamento, dos objetos e canções, bem como das formas de nomeação das bases militares e do que os militares chamam de mística dos guerreiros de selva, busco responder a duas perguntas: como a presença militar na Amazônia é elaborada simbolicamente pelo Exército Brasileiro? E o que essa produção simbólica revela acerca do pensamento militar sobre aquela porção do país e suas populações? Frequentemente, ao formularem que só se igualando à “selva” os militares estão em condições de controlá-la, os guerreiros de selva, em particular, e o Exército, de forma geral, lançam mão de diversas “capturas” e “espelhamentos” do que entendem ser a “selva”. Daí advém o argumento central deste artigo de que boa parte dos usos que os militares fazem das onças pintadas e de toda uma gama de elementos contrabandeados das populações indígenas na Amazônia podem ser vistos como modos de controlar a sua expressão face ao “outro”. Assim, por exemplo, no caso dos Munduruku, “homenageados” na nomeação de bases de instrução, em canções e mesmo em competições internas do Centro de Instrução de Guerra na Selva, remetem a um imaginário de um “povo guerreiro” cujas características devem espelhar àquelas dos soldados na Amazônia. Trata-se, em suma, de uma visão de mundo militar que se utiliza do passado colonial como cerne de sua presença na Amazônia.
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