Tempo, gênero e pesquisa digital: desafios na pesquisa com mulheres motoristas durante a pandemia
DOI:
https://doi.org/10.22409/antropolitica2026.v58.i3.a69168Palavras-chave:
Metodologia digital, Gênero, Trabalho plataformizado, Trabalho de cuidado, Tempo.Resumo
A partir das experiências de campo de minha tese de doutorado, este trabalho discute os desafios e dilemas metodológicos da pesquisa que entrelaça ferramentas digitais e dinâmicas de gênero. O artigo tem como objetivo problematizar os desafios metodológicos envolvidos na realização de pesquisas mediadas por tecnologias digitais com mulheres trabalhadoras de plataformas, tomando como referência uma investigação sobre a rotina de trabalho e a vida cotidiana de motoristas de aplicativos de transporte privado. A pesquisa foi realizada por meio de entrevistas remotas conduzidas por videochamadas ao longo do ano de 2020, em um contexto de pandemia. No entanto, essas conversas foram atravessadas por obstáculos relacionados às demandas do cotidiano feminino, principalmente em meio à crise sanitária, revelando tensões entre a (suposta) autogestão do tempo, mencionada por minhas interlocutoras, e as imposições de tarefas de cuidado, que frequentemente dificultavam a realização das entrevistas. O que emergiu das entrevistas foi uma sobreposição entre trabalho produtivo e reprodutivo, em que o tempo das mulheres era disputado por múltiplas demandas: as da plataforma, as da casa, as dos filhos e as do próprio corpo. Dessa forma, problematizo a distinta conceituação do tempo para trabalhadoras e trabalhadores de empresas-aplicativo, evidenciando como a mediação por novas tecnologias dilui as fronteiras entre diferentes esferas da vida cotidiana, tornando-as permeáveis entre o doméstico e o financeirizado. Além disso, analiso as estratégias metodológicas utilizadas para acessar minhas interlocutoras, desde o uso de redes sociais até a amostragem em bola de neve. Como principal resultado, argumento que o uso do digital como ferramenta de pesquisa e como objeto de análise exige uma reflexão metodológica específica, uma vez que as tecnologias digitais reconfiguram simultaneamente as formas de acesso ao campo, as condições de realização da pesquisa e as experiências de trabalho e de cuidado vividas pelas interlocutoras.
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