Ruptura, reparação e reconciliação: tentativas de criar futuro no siloísmo contemporâneo
DOI:
https://doi.org/10.22409/antropolitica2026.v58.i2.a69233Palavras-chave:
Siloísmo, Recomposição, Reparação, Pragmatismo, Etnografia.Resumo
O crescimento da polarização no mundo contemporâneo, associado ao surgimento das ultradireitas e ao efeito de fechamento em bolhas das redes sociais, tem levado as humanidades a enfatizar, nos últimos anos e com grande preocupação, os processos de fragmentação e decomposição em curso. Uma descrição “espessa” desses panoramas precisa considerar também as experiências que buscam trabalhar as fissuras na direção oposta, tentando criar mundos comuns e futuros menos sombrios. As rachaduras não produzem apenas ruptura, mas também tentativas, precárias, porém persistentes, de recomposição. Este artigo examina como o siloísmo contemporâneo — movimento humanista surgido nos anos 1960 na Argentina e posteriormente expandido transnacionalmente — convive com e atua sobre essas fraturas. A partir de uma etnografia multissituada no Brasil, na Argentina e em espaços virtuais, o artigo apresenta, em primeiro lugar, controvérsias vividas relativas à compatibilidade entre uma perspectiva universalista do ser humano e as agendas do antirracismo e do feminismo mobilizadas pelos atores. Em segundo lugar, analisa práticas rituais e coletivas orientadas à produção de experiências de reconexão, nas quais se ensaiam formas situadas de elaboração das diferenças e do sofrimento. A reparação torna-se, nesse contexto, um modo de levar em conta as desigualdades e a história de violência e dominação, sem romper o vínculo com aqueles com quem se tecem alianças para construir futuros. Em diálogo com o pragmatismo, o artigo argumenta que essas formas de convivência não eliminam as tensões, mas intervêm no modo como elas se configuram por meio de práticas deliberadas de recomposição e reparação. Longe de resolver as fissuras, tais práticas buscam torná-las habitáveis, sustentando, de jeito frágil, porém persistente, a possibilidade de produzir o comum em contextos cismáticos. Longe de resolver as fissuras, tais práticas buscam torná-las habitáveis, sustentando, de jeito frágil, porém persistente, a possibilidade de produzir o comum em contextos cismáticos.
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