Testemunhar o ordinário: travestilidades, políticas de memória e transmutação no Museu da Imagem e do Som do Ceará
DOI:
https://doi.org/10.22409/antropolitica2026.v58.i2.a69743Palavras-chave:
Transmutação do museu, Políticas de memória, Ações afirmativas, Travestilidade.Resumo
Este artigo analisa o processo de institucionalização de uma política de memória no Museu da Imagem e do Som do Ceará Chico Albuquerque, a partir do programa Trair o CIStema. Com base em pesquisa etnográfica realizada em 2024, o estudo acompanhou o primeiro Ateliê de Criação Tecnologias Transvestigêneres, conduzido por arte-educadoras travestis, com foco em suas dinâmicas formativas, pedagógicas e criativas, bem como nas experiências das artistas no interior da instituição. A análise evidencia que o ateliê se constitui como um espaço de produção de memória travesti que se realiza por meio de práticas ordinárias de criação, cuidado e elaboração de experiências atravessadas por violências institucionais. Ao mesmo tempo, demonstra-se que a implementação dessa política não elimina as dinâmicas de exclusão, mas as reconfigura no cotidiano do museu, tensionando continuamente as condições de acesso e permanência. Examina-se, ainda, o processo de construção do Edital nº 014/2023 que viabilizou a iniciativa, compreendendo-o como uma política de memória que produz formas específicas de inclusão, ao mesmo tempo em que revela estruturas institucionais que, atravessadas por desigualdades de raça, gênero e território limitam o acesso e permanência das travestis. Como resultado, argumenta-se que o museu emerge como um campo de disputa, no qual práticas artísticas e pedagógicas transcentradas produzem deslocamentos nos regimes de memória, visibilidade e escuta. Conclui-se que tais experiências configuram processos de transmutação institucional, ao instaurar outras temporalidades, epistemologias e modos de habitar o espaço museal, ainda que de maneira parcial, instável e em permanente tensão com as estruturas que historicamente sustentam a exclusão.
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