Políticas do fio: uma leitura feminista de Corte e costura, de Marina Gaspar
Palabras clave:
memória, fragmento, escrita poética, epistemologia feminista, costura (como procedimento discursivo)Resumen
Corte e costura, de Marina Gaspar, organiza-se pela lógica do fragmento. Cada poema opera como um “corte” — um gesto que interrompe a linearidade e revela uma memória isolada, autônoma, quase como retalhos dispersos. Ao mesmo tempo, esses recortes instauram uma “costura”: um esforço de remendar experiências, alinhavar lembranças e produzir sentido a partir do que resiste. O livro constrói, assim, uma poética da descontinuidade, na qual recordar e narrar significam disputar o que pode entrar ou não no tecido do dizer. Ao longo do livro, costurar e escrever tornam-se gestos paralelos: ambos implicam rasgar, remendar, reconstruir e inscrever novas possibilidades de existência. A instabilidade dos poemas — sua fragmentação, suas quebras, seus silêncios — reflete a instabilidade das próprias categorias de análise no feminismo contemporâneo. Nesse sentido, a obra sugere que, assim como o tecido, a memória e o conhecimento também se fazem de fendas, reparos e sobreposições. O que me interessa neste estudo, assim, é a construção poética da obra de Marina: como o corte, os fios e nós — gestos da costura — aparecem como procedimento discursivo, de reelaboração da memória e construção do arquivo; como podemos ler esses procedimentos em um contexto mais amplo, pensar a relação que estabelecem entre diferentes temporalidades; por fim, refletir sobre em que medida podemos pensar a aproximação entre costura e texto como produtiva para a construção de uma epistemologia feminista.
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Referencias
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