Entre ruínas e histórias, histórias de ruínas: Atafona como paisagem do Antropoceno no Litoral Brasileiro
DOI:
https://doi.org/10.22409/antropolitica2026.v58.i1.a65321Palavras-chave:
Atafona, Antropoceno, Ruínas, História oral, Brasil.Resumo
No delta do rio Paraíba do Sul, na região norte do estado do Rio de Janeiro, está situado o distrito de Atafona. Ao longo do século XX se estabeleceu ali o principal balneário dos moradores da cidade de Campos dos Goytacazes, que construíram em Atafona suas residências de vilegiatura e para as quais sazonalmente passaram a deslocar-se com suas famílias. Há cerca de 60 anos, com a intensificação das perturbações ecológicas sofridas pelo rio Paraíba do Sul, o mar iniciou um processo de paulatino avanço sobre as áreas construídas do balneário, “engolindo” quarteirões inteiros e eliminando casas, árvores e ruas da paisagem. Hoje, à beira da praia, vergalhões, paredes, lajes e outros resquícios daquilo que outrora foram as casas de veraneio constituem as ruínas de Atafona, oferecendo, a um só tempo, as imagens do presente e as memórias de um passado relativamente próximo. Nosso artigo, a partir de trabalho de campo etnográfico — da realização de entrevistas, de revisão bibliográfica, da consulta a material jornalístico e da análise de álbuns de fotografias de família — apresenta a constituição de Atafona como balneário das elites do Norte Fluminense e reflete sobre a formação das ruínas da praia e o impacto social do processo erosivo em uma paisagem que proporciona a materialização do Antropoceno.
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