Correr atrás: demandas e regulamentações do uso terapêutico-medicinal da maconha no Brasil e na Argentina
DOI:
https://doi.org/10.22409/antropolitica2026.v58.i1.a68512Palavras-chave:
Maconha, Regulamentação, Cultivo, Etnografia.Resumo
Nos últimos anos o uso terapêutico-medicinal da maconha tem gerado novos tensionamentos sobre os usos da planta e mobilizado pacientes, familiares, profissionais da saúde e ativistas em torno de demandas de acesso. Neste artigo analiso, por meio da etnografia, as estratégias mobilizadas pelos meus interlocutores na busca pelo acesso legal à maconha no Brasil e na Argentina. A pesquisa foi realizada por meio do trabalho de campo, da observação participante e da realização de entrevistas junto a tais atores e associações canábicas. Tomo a categoria nativa correr atrás também como analítica para descrever práticas envoltas pela urgência do acesso e o enfrentamento de entraves burocráticos e jurídicos. No Brasil, concentro-me no caso de Jair e procuro evidenciar como seu correr atrás se desdobra na busca por informações, pelos médicos e na efetivação do acesso por meio da judicialização, em um primeiro momento demandando o custeio da importação pelo Estado e, posteriormente, através do Habeas Corpus para o cultivo. Na Argentina, por meio da interlocução com Olívia e Agustina, fundadoras de duas associações, procuro explicitar como a articulação entre sociedade civil e as burocracias estatais contribuiu para a construção de uma regulamentação mais ampla, que permite formas legais de cultivo, produção e acesso à maconha com fins terapêutico-medicinais. Concluo que as diferentes formas de acesso à maconha não são reflexo apenas de marcos regulatórios distintos, mas são atravessadas pelos modos em que se corre atrás em cada um desses contextos.
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