Antropolítica - Revista Contemporânea de Antropologia https://periodicos.uff.br/antropolitica <p style="line-height: 20.95pt; background: white; margin: 16.75pt 0cm 16.75pt 0cm;"><span style="font-size: 11.5pt; font-family: 'Segoe UI','sans-serif';">A Antropolítica – Revista Contemporânea de Antropologia do Programa de Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense é uma revista científica que tem como objetivo a publicação e divulgação ampla de conhecimentos e debates advindos da produção de conhecimento científico e acadêmico na área das Ciências Humanas e Sociais.</span></p> <p><strong>ISSN: 2179-7331</strong></p> <p><strong>Qualis: A2</strong></p> pt-BR <p>O conteúdo da revista Antropolítica, em sua totalidade, está licenciado sob uma Licença Creative Commons de atribuição CC-BY (<a href="http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/deed.pt">http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/deed.pt</a>).</p> <p>De acordo com a licença os seguintes direitos são concedidos:</p> <ul> <li>Compartilhar – copiar e redistribuir o material em qualquer suporte ou formato;</li> <li>Adaptar – remixar, transformar, e criar a partir do material para qualquer fim, mesmo que comercial;</li> <li>O licenciante não pode revogar estes direitos desde que você respeite os termos da licença.</li> </ul> <p>De acordo com os termos seguintes:</p> <ul> <li>Atribuição – Você deve informar o crédito adequado, fornecer um link para a licença e indicar se alterações foram feitas. Você deve fazê-lo em qualquer maneira razoável, mas de modo algo que sugira que o licenciante o apoia ou aprova seu uso;</li> <li>Sem restrições adicionais — Você não pode aplicar termos jurídicos ou medidas de caráter tecnológico que restrinjam legalmente outros de fazerem algo que a licença permita.</li> </ul> antropoliticauff@gmail.com (Lucía Eilbaum (editora-chefe)) antropoliticauff@gmail.com (Revista Antropolítica) Thu, 02 Jan 2025 00:00:00 +0000 OJS 3.2.1.0 http://blogs.law.harvard.edu/tech/rss 60 Folha de rosto https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/67246 Comitê Editorial Copyright (c) 2025 Comitê Editorial https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/67246 Wed, 02 Apr 2025 00:00:00 +0000 Nota dos editores https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/67247 Comitê Editorial Copyright (c) 2025 Comitê Editorial https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/67247 Wed, 02 Apr 2025 00:00:00 +0000 Apresentação: Riscos, conflitos e relações de poder no trabalho de campo https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/66976 <p>Apresentamos o dossiê Conflitos e relações de poder em contextos de trabalho de campo antropológico cujo objetivo foi refletir sobre dilemas práticos e analíticos na realização de pesquisas em antropologia, a partir especificamente da perspectiva de quando estar em campo é estar em risco. Muito tem sido escrito sobre estratégias para a realização de pesquisas em contextos violentos, mas nem sempre os relatos sobre experiências de violências vividas por pesquisadoras/es durante o trabalho de campo têm ultrapassado as conversas informais sobre os bastidores da pesquisa e se tornado objetos de reflexão. Isso porque o ato de tornar públicas algumas das ocorrências de campo vem, no geral, cercado de interditos, silêncios e incertezas, na medida em que a exposição dessas situações pode suscitar questionamentos sobre o profissionalismo da/o pesquisador/a, dos dados ou criar novos conflitos e retaliações. Deste modo, buscamos criar um espaço de compartilhamento de relatos e reflexões que pudesse contribuir com debates metodológicos e éticos ao problematizar os desafios que as/os próprias/os pesquisadoras/es enfrentam em campo. Os trabalhos apresentados dão ênfase a análises sobre pesquisas de campo atravessadas por imprevisibilidades, relações de poder e violações; a relatos sobre como desigualdades e situações de violência impactaram na produção do conhecimento e na carreira acadêmica; e reflexões sobre os efeitos destas situações na escrita dos resultados das pesquisas. Um esforço no sentido de, ao fim, provocar uma ampliação tanto do debate sobre ética de pesquisa, quanto sobre os protocolos de segurança e institucionalização de redes de proteção a pesquisadoras/es.</p> Carolina Parreiras, Michele Escoura Copyright (c) 2025 Carolina Parreiras, Michele Escoura https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/66976 Tue, 01 Apr 2025 00:00:00 +0000 Etnografia na guerra: um ensaio sobre pesquisas de campo na Palestina https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/63380 <p class="western" align="justify">Realizar trabalhos de campo na Palestina envolve uma série de riscos que devem ser levados em consideração pelo/a pesquisador/a. Estes vão desde a exposição direta à violência praticada pelo exército israelense e pelos colonos armados, até a exposição aos rumores de suspeição relacionados com a presença de agentes de inteligência infiltrados e às possibilidades do desenvolvimento de condições psicológicas relacionadas com ansiedade e depressão. Estes fatores impelem o/a pesquisador/a a refletir sobre estratégias de precaução, relacionadas tanto com sua integridade física e psicológica quanto com a exposição de informações sensíveis, cuja publicização nem sempre é possível – em especial na existência do risco de prisões e mesmo morte de pessoas envolvidas. Para este artigo, apresento quatro relatos etnográficos, ocorridos ao longo de 10 anos de pesquisa de campo in loco, sendo quatro destes residindo no país. Busco, com isso, demonstrar como a violência foi constante ao longo dos anos e, também, apresentar mudanças percebidas em campo após a erupção da guerra contra a Faixa de Gaza, iniciada em outubro de 2023 – apontando para como estas mudanças afetaram de forma drástica também a Cisjordânia. Demonstro como dois contextos distintos – um sob ocupação militar, outro em situação de guerra declarada – mas componentes de uma mesma conjuntura social e política, demandam compreensões e adaptações rápidas, por parte de pesquisadores/as, de modo a responder aos imperativos relacionados com as violências em curso.</p> Rafael Gustavo de Oliveira Copyright (c) 2025 Rafael Gustavo de Oliveira https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/63380 Tue, 01 Apr 2025 00:00:00 +0000 A desinformação como um campo contestado: desafios teórico-metodológicos e a ética da pesquisa com o “outro desconfortável” https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/64170 <p>Este artigo trabalha a desinformação científica em saúde como um campo contestado a partir de um estudo sobre os usos e os sentidos atribuídos à ciência e ao jornalismo por usuários do Telegram. Realizamos nossa pesquisa em três canais sobre covid-19 no aplicativo e observamos que o debate sobre a vacinação contra a doença era permeado pelo compartilhamento de valores cristãos, conservadores e neoliberais, especialmente aqueles relacionados à liberdade, ao liberalismo econômico, à moral e à família. Diante disso, apresentamos os desafios teóricos, metodológicos e éticos de realizar pesquisa com um “outro desconfortável” que adere a valores e narrativas que questionam a eficácia das vacinas contra a covid-19, colocando à prova proteção sanitária da população e dos indivíduos, além de apresentarem crenças, normas e valores que entram em oposição com as nossas visões de mundo. Esses interlocutores, cujas crenças entram em conflito com nossas visões de mundo, nos levaram a explorar a “antropologia sombria” para compreender o impacto do neoliberalismo e as dinâmicas emocionais e morais envolvidas na pesquisa com grupos que promovem desinformação, refletindo sobre a ética da observação anônima, a dificuldade de acesso a interlocutores desconfiados e os impactos emocionais do trabalho de campo em ambientes hostis. Além disso, concluímos que é necessário problematizar a neutralidade acadêmica diante de grupos que promovem desinformação e discursos extremistas.</p> Ana Carolina Monari, Hully Guedes Falcão, Igor Sacramento Copyright (c) 2025 Ana Carolina Monari, Hully Guedes Falcão, Igor Sacramento https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/64170 Tue, 01 Apr 2025 00:00:00 +0000 O excesso no matar e a dor em excesso: dilemas etnográficos a partir de uma narrativa de violência, morte e luto https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/64377 <p>O objetivo deste artigo é refletir sobre os dilemas etnográficos envolvidos em narrativas de dor, morte e violência. A partir de um caso de linchamento público de Gabriel, um jovem negro morador de favela, acompanhado durante a pesquisa de campo, proponho refletir sobre alguns dilemas levantados por pesquisas que trabalham com violência. Assim, a proposta deste artigo é de âmbito ético e metodológico, já que toma como base os desafios encontrados na feitura e escrita da etnografia, em momentos nos quais somos confrontadas com a violência, com o excesso, com o terror e a morte. O ponto de partida da argumentação é a narrativa de Auxiliadora, mãe de Gabriel, que conta sobre as sucessivas mortes – físicas e simbólicas – pelas quais ele passa. Na medida em que se trata de contextos marcados pela sobreposição de violências, como capturar e expressar experiências invisíveis, escondidas e que acessam dores e memórias, tornando-as inteligíveis no texto etnográfico? Como dar sentido antropológico aos silêncios e a outras linguagens utilizadas pelos sujeitos desta pesquisa, a fim de entender o caráter cotidiano e ordinário destas violências? Como expressar – para além do vocabulário do trauma – vivências de sofrimento, horrores, nas quais toda palavra parece insuficiente? Quais os mecanismos que constroem o corpo negro periférico como o inimigo a ser eliminado? Neste sentido, tomando como ponto de partida minha própria inserção em campo, busco discutir questões como vulnerabilidade, invisibilidade, metodologia de pesquisa e a própria construção do texto etnográfico, especialmente em momentos que parecem inenarráveis e nos quais meus próprios sentimentos se infiltram na etnografia.</p> Carolina Parreiras Copyright (c) 2025 Carolina Parreiras https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/64377 Tue, 01 Apr 2025 00:00:00 +0000 Ser pesquisadora, ser testemunha: dilemas e potencialidades do fazer etnográfico em contextos de violência e criminalização https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/64185 <p>Neste artigo, tecemos um diálogo entre cinco etnógrafas que realizam pesquisas em contextos de violência, precariedade, criminalização e encarceramento. Partimos do pressuposto de que essas características não só tensionam as experiências e os cotidianos daquelas/es com quem interagimos, mas impactam e informam nossos campos e práticas de pesquisa, adquirindo uma dimensão produtiva. Com base na descrição de quatro cenas e de um relato de entrevista – marcadas por lugares, interlocutores e condições distintas –, expomos suas articulações por meio de três vetores analíticos, separados entre si como recursos heurísticos: a pesquisa como o testemunho, a reflexividade sobre o fazer etnográfico e a corporalidade das pesquisadoras. Conduzidas por esses eixos temáticos, realizamos um debate propositivo sobre dilemas e potencialidades epistemológicos, metodológicos e políticos de etnografar em contextos de violência <br />e criminalização. Considerá-los na dimensão produtiva significa entender como o que nos é testemunhado se relaciona a nossas posições em campo e ao modo como nos comunicamos e nos fazemos entender em relação às expectativas e pressupostos que se relacionam a essas posições. O artigo demonstra como ser pesquisadora e testemunha da violência pode trazer dimensões produtivas tanto no âmbito da pesquisa científica quanto nos engajamentos e lutas cotidianas com interlocutores/as que vivenciam e reagem às situações de violência.</p> Ada Rízia Barbosa de Carvalho, Isabela Vianna Pinho, Marcelli Cipriani, Juliana Torres y Plá Trevas, Alana Barros Santos Copyright (c) 2025 Ada Rízia Barbosa de Carvalho, Isabela Vianna Pinho, Marcelli Cipriani, Juliana Torres y Plá Trevas, Alana Barros Santos https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/64185 Tue, 01 Apr 2025 00:00:00 +0000 Os pactos narcísicos da Academia: subalternidades, exclusões e violências https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/64387 <p>O presente artigo apresenta dois relatos de pesquisa sobre como o pacto narcísico da academia invisibiliza a produção teórica dos corpos subalternizados no ambiente acadêmico e de como reiteram violências que são ao mesmo tempo sentidas e pesquisadas. Ao situar a criação da universidade e os referenciais teórico-epistemológicos que a constitui, apresenta duas experiências de pesquisas distintas: um relato autoetnográfico e análise de narrativas midiáticas. Por meio da interpretação dos marcadores sociais da diferença e a partir de uma perspectiva interseccional, são apresentadas as diferentes estratégias de luta por reconhecimento, proteção e autopreservação de grupos subalternizados diante das dificuldades enfrentadas por eles, e pelos próprios pesquisadores, ao relatarem situações de violência sofridas no meio acadêmico. Ao problematizar sobre o pacto narcísico da branquitude proposto por Cida Bento, discorre-se sobre como os diferentes pactos narcísicos da academia, históricos e contemporâneos, modelam e regulam as relações de poder e produção intelectual na universidade, garantindo a perpetuação de privilégios e visibilidade, através de diversas formas de controle institucional, valendo-se de violência, exclusão e silenciamentos como mecanismos de controle e regulação das relações estabelecidas e, em contraposição, a urgência de romper com a invisibilidade e dar voz e reconhecimento aos excluídos e subalternos, garantindo e respeitando a sua subjetividade, a sua posicionalidade e o agenciamento que acionam para garantirem a sua sobrevivência e a de suas pesquisas nesse meio.</p> Carolina dos Santos Bezerra, Felipe Paes Piva Copyright (c) 2025 Carolina dos Santos Bezerra, Felipe Paes Piva https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/64387 Tue, 01 Apr 2025 00:00:00 +0000 Além das “anedotas”: antropologia e alteridades etnográficas na prestação de serviços para uma pesquisa em saúde em Angola https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/64606 <p>Este artigo relata experiências que tive como pesquisadora brasileira em formação em Antropologia durante trabalho de campo em Angola, no início dos anos 2010, e reflete sobre os desafios da pesquisa etnográfica em contextos de cooperação internacional. Apresento o cenário político à época para as relações Brasil-continente africano, que permitiram a inserção em campo como prestadora de serviços para pesquisa epidemiológica sobre HIV/aids, financiada por uma agência internacional e executada por uma equipe brasileira. A pesquisa se desenrolou na província do Cunene, região fronteiriça com a Namíbia, marcada por intensa mobilidade de pessoas entre os países e estigmatização de mulheres que viveram mais tempo na Namíbia, estas frequentemente associadas à prostituição e à disseminação do HIV. Relato as dificuldades em conciliar as demandas dos financiadores por “populações-alvo” e “variáveis específicas” com a complexidade da realidade social observada, que desafiava as categorias preestabelecidas e evidenciava a vulnerabilidade generalizada à epidemia. Destaco tensões entre diferentes atores envolvidos na cooperação internacional, evidenciando a hierarquização dos saberes e certa desvalorização de dados qualitativos e da perspectiva antropológica, considerada “anedótica” pelos financiadores. Questiono a imposição de agendas externas e a reificação de estereótipos em detrimento da compreensão das dinâmicas sociais locais. Por fim, reflito sobre atravessamentos presentes no decorrer da pesquisa como gênero, raça e nacionalidade, e como estes influenciaram as interações em campo. Concluo enfatizando a importância da antropologia na produção de conhecimento crítico e situado, capaz de questionar assimetrias de poder e contribuir para dirimir processos de injustiça e silenciamentos.</p> Camila Alves Machado Sampaio Copyright (c) 2025 Camila Alves Machado Sampaio https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/64606 Tue, 01 Apr 2025 00:00:00 +0000 Apresentação: Maternidades ameaçadas: atuação acadêmica, formação de redes e a luta por direitos https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/66977 <p>O presente artigos apresenta a constituição do dossiê Maternidades ameaçadas: desigualdades, violências e direitos e analisa as formas de regulação e exclusão que afetam a experiência materna, com foco no Brasil e na Argentina. O texto situa o dossiê no contexto das pesquisas da Rede Transnacional de Pesquisas sobre Maternidades Destituídas, Violadas e Violentadas, da Rede Anthera e da equipe de Burocracias, Parentesco, Direitos e Infância, vinculada ao Programa de Antropología Política y Jurídica da Universidade de Buenos Aires. Essas iniciativas articulam investigação acadêmica e colaboração com atores sociais para ampliar o debate sobre justiça reprodutiva e parentalidades contemporâneas. A análise destaca como discursos jurídicos, políticas públicas e práticas institucionais produzem desigualdades reprodutivas, impactando o direito de maternar e mostra que essas formas de violência e destituição não se limitam a práticas estatais e institucionais. Elas operam em uma complexa rede de moralidades sociais, discursos midiáticos, saberes técnicos e crenças religiosas, conformando uma microfísica da violência reprodutiva que atravessa o cotidiano das mulheres e suas famílias. Além disso, evidencia formas de resistência e mobilização de mães e coletivos feministas diante dessas dinâmicas. O dossiê reúne pesquisas que contribuem para esse debate, buscando aprofundar a compreensão das relações entre maternidade, violência e desigualdade.</p> Natália Helou Fazzioni, Carla Villalta, Janaína Dantas Germano Gomes Copyright (c) 2025 Natália Helou Fazzioni, Carla Villalta, Janaína Dantas Germano Gomes https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/66977 Tue, 01 Apr 2025 00:00:00 +0000 “Defeito de fabricação”: o que uma campanha publicitária nos anos 1980 nos diz sobre maternidade e racismo no Brasil? https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/64148 <p>O presente artigo tem como objetivo apresentar e discutir os conceitos de dispositivo de racialidade, imagens de controle e hierarquias reprodutivas, a partir do caso da campanha publicitária divulgada em 1986 pelo Centro de Pesquisa e Assistência em Reprodução Humana (CPARH), na cidade de Salvador, na Bahia, e, assim, contribuir para o debate em torno da maneira como o racismo opera sobre as maternidades negras, pobres e periféricas no Brasil. Quanto à metodologia, o artigo busca articular dois caminhos metodológicos: o campo de estudos sobre a sociologia do racismo, que toma o racismo não somente como premissa, mas também como objeto de pesquisa em casos concretos, analisando a forma como ele opera; e a perspectiva de análise do feminismo descolonial, para compreender como os sistemas de opressão colonialista, capitalista, racial e de sexo/gênero estão articulados e desumanizam mulheres negras. Concluímos que os sistemas de opressão atuam por meio de mecanismos como o dispositivo de racialidade, imputando interdições às mulheres negras; pelas imagens de controle, gerando estereótipos e desumanização dos seus corpos; e pelas hierarquias reprodutivas, que geram maternidades subalternizadas. Além de gerar a subalternização de pessoas negras, concluímos também que o contrato racial e o pacto narcísico da branquitude conferem privilégios às pessoas brancas e dão sustentação aos mecanismos de opressão racista. As consequências disso são as violações sistemáticas aos direitos humanos das mulheres negras.</p> Manuela Nascimento Copyright (c) 2025 Manuela Nascimento https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/64148 Tue, 01 Apr 2025 00:00:00 +0000 Estado d(e) Graça: o reordenamento de corpos “fora do lugar” pela desordem civil-racial https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/64169 <p>Este artigo investiga a destituição do poder familiar de Maria das Graças de Jesus, conhecida como Gracinha, uma mulher quilombola da comunidade Toca Santa Cruz, na cidade de Paulo Lopes, estado de Santa Catarina. O “Caso Gracinha” trata da suspensão de seus direitos maternos, fundamentada em uma denúncia anônima e permeada por processos de racismo institucional, misoginia, elitismo e capacitismo. A pesquisa examina como a noção de desordem foi mobilizada para estereotipá-la, desumanizá-la e justificar as decisões que resultaram na separação dela e de seus filhos. Através da análise de entrevistas e reportagens, o artigo discute como categorias raciais, de gênero e de sexualidade estruturam punições biopolíticas do Estado. Mulheres negras e quilombolas frequentemente enfrentam mecanismos de vigilância e controle que questionam sua capacidade de maternagem, associando-as a representações negativas. O caso revela como estruturas de poder atuam na produção de desigualdades, afetando diretamente a vida de sujeitos historicamente marginalizados. Além disso, a pesquisa dialoga com estudos críticos sobre raça e gênero, destacando como políticas públicas e decisões judiciais podem reforçar violências institucionais. Em conclusão, o artigo contribui para o debate sobre justiça familiar, combate ao racismo, direitos das mulheres quilombolas e a intersecção entre raça, classe e maternidade no Brasil.</p> Thiago da Silva Santana Copyright (c) 2025 Thiago da Silva Santana https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/64169 Tue, 01 Apr 2025 00:00:00 +0000 “Preciso estar bem para cuidar do meu filho”: (des)encontros entre raça, maternidade e loucura https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/64152 <p>Este artigo explora os (des)encontros entre raça, maternidade e loucura a partir da análise de dois casos de mulheres negras, socialmente lidas como loucas, atendidas em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) III na Baixada Fluminense, Rio de Janeiro. O relato etnográfico é baseado nas experiências vividas pelo primeiro autor, tanto como pesquisador quanto como profissional e gestor do serviço de saúde mental entre 2020 e 2022. Os materiais utilizados na pesquisa foram prontuários, relatórios sobre os casos, registros de discussão em supervisões semanais de equipe, reuniões intersetoriais e supervisões de território, diário de campo, fotografias, além das memórias pessoais e afetações produzidas a partir do encontro com as mulheres no espaço de convivência e cuidado do CAPS. O artigo examina as estratégias de cuidado da equipe, destacando momentos de apoio e as violências e fracassos que levaram à violação dos direitos reprodutivos e desejos dessas mulheres de maternar. Baseada em uma perspectiva socioantropológica e interseccional, a análise foca na gestão estatal do desejo e do direito à maternidade reivindicado por essas mulheres, bem como nas violações desses direitos e desejos por meio do afastamento compulsório de seus filhos. O artigo também evidencia como essas mulheres deixaram de ser “casos” para se tornarem uma “causa” para a equipe, através de suas estripulias, causações, rebeldias e atrevivências na tentativa de afirmarem o desejo e o direito de serem mães.</p> Ueslei Solaterrar, Laura Lowenkron Copyright (c) 2025 Ueslei Solaterrar, Laura Lowenkron https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/64152 Tue, 01 Apr 2025 00:00:00 +0000 Mães destituídas da maternidade: biopolítica, (in)justiça reprodutiva e novos saberes sobre a pobreza https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/64041 <p>Este artigo trata de maternidades que foram destituídas pelo sistema de justiça, por terem sido consideradas negligentes, incapazes, vulneráveis, por não corresponderem às prescrições biopolíticas e ao ideal normativo de maternidade. Interpretamos a aplicação desse mecanismo jurídico como efeito de um conjunto de estratégias de poder e saber postos em ação na arena reprodutiva sobre sujeitos determinados, reforçando as desigualdades de gênero, raça, classe e território. Para tanto, empreendemos primeiramente uma análise junto a textos de lei e pesquisas históricas acerca da gestão e institucionalização da menoridade, na primeira metade do século XX, mostrando como esse projeto disciplinador da infância pobre e racializada se operava através do controle moral exercido sobre suas famílias. Em perspectiva contemporânea, apresentamos um levantamento quantitativo realizado junto às ações de destituição em uma Vara da Infância e da Juventude da região leste da capital paulista, entre os anos de 2018 e 2021, revelando a totalidade de mães entre as pessoas destituídas, e a prevalência de mulheres negras, chefes de família monoparentais, em situação de extrema pobreza material e sem acesso à justiça. Buscou-se interpretar esse quadro de despossessão e violação sucessivas promovidas contra os sujeitos que maternam a partir do conceito da governança reprodutiva e do paradigma da justiça reprodutiva, a fim de ampliar o debate sobre direitos reprodutivos, adoção e maternidade, para incluir em seu horizonte as denúncias e demandas por equidade e justiça social de grupos atravessados por opressões interseccionais.</p> Alessandra Teixeira, Ana Carolina Pate Cardoso Uchôa Copyright (c) 2025 Alessandra Teixeira, Ana Carolina Pate Cardoso Uchôa https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/64041 Tue, 01 Apr 2025 00:00:00 +0000 O bebê fraturado: um caso de sequestro de crianças pelo Estado e o lugar do trabalho da equipe técnica interprofissional do judiciário https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/64166 <p>Este trabalho pretende ser um relato de experiência como psicóloga na equipe interprofissional da Vara da infância e Juventude do Tribunal de Justiça em um município da região metropolitana do Estado de São Paulo. A partir da leitura crítica do processo judicial apoiada em referências teóricas como Foucault e Mascaro, bem como na produção científica crítica do campo da psicologia jurídica, do direito e da antropologia da infância, foi pensado o papel da equipe interprofissional na intervenção e produção de relatório no Judiciário. Para tanto, tratou-se de trazer à reflexão as intervenções e produção de relatório psicológico em um processo judicial de pedido de medida protetiva de acolhimento institucional. Assim, no âmbito do judiciário, foi solicitado por decisão judicial o pedido de estudo psicossocial acerca dos genitores da bebê Catarina, com dois meses, que havia sido retirada de sua família. Diversos pesquisadores têm denunciado a ilegalidade e violência subjacente de tais práticas de retirada arbitrária de crianças de suas famílias biológicas sob o pretexto de lhes garantir proteção integral. Tais processos vêm sendo nomeados criticamente como sequestro, separação precoce ou retirada compulsória de crianças pelo Estado. Nesse sentido, o artigo pretendeu reconstruir o percurso da produção da verdade médico-jurídica produzida pela parceria entre Ministério Público, poder judiciário e instituição da saúde. Evidenciou-se como a produção da verdade médico-jurídica tampouco se apoiou em pressupostos empíricos e científicos da clínica médica, sendo informada por representações, estereótipos e formas de tratamento historicamente praticadas socialmente com as famílias das classes trabalhadoras e racializadas. O artigo procurou apontar para como as concepções, imaginações e afetos naturalizados sobre as famílias das classes trabalhadoras e racializadas se materializam por meio de formas coercitivas de tratamento em diversas instituições estatais.</p> Gabriela Balaguer Copyright (c) 2025 Gabriela Balaguer https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/64166 Tue, 01 Apr 2025 00:00:00 +0000 Maternidades interrumpidas: mujeres que denuncian el robo de sus hijos e hijas en Argentina https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/64202 <p>Desde hace algunos años, en Argentina, un grupo de mujeres de entre 50 y 80 años comenzó a denunciar el robo de sus hijos e hijas al nacer. Según sus relatos, esto aconteció en hospitales públicos, clínicas privadas y también consultorios clandestinos, en donde les dijeron que sus bebés habían muerto, aunque nunca les mostraron sus cuerpos ni les entregaron certificados de defunción. Además, relatan que lejos de haber tenido un reconocimiento de la situación de violencia que habían atravesado, fueron sospechadas de haber entregado y/o abandonado a sus hijos/as. En este artículo, a partir del análisis de la historia de Luisa, una de estas mujeres, exploramos los contextos en los que se dieron esos robos, con el fin de conocer los argumentos, valores y prescripciones que se construyeron para justificar la separación de sus hijos e hijas. Sostenemos como hipótesis que las maternidades interrumpidas de estas mujeres son producto de un tipo de violencia específico informado por un modelo de moralidad materna y basado en regímenes de género que han permitido minorizar a determinadas mujeres. Nuestro trabajo procura ser un insumo para explicar los usos socio-políticos de la categoría “maternidad” en el contexto del robo de niños en Argentina, con la intención de mostrar la plasticidad de los mandatos que se le asocian, así como la porosidad de la frontera que define el carácter apropiado o deseable de su ejercicio, lo cual tiene efectos directos en el derecho de las mujeres a maternar en nuestra historia reciente.</p> María Soledad Gesteira, Soledad Rojas Novoa, Carla Villalta Copyright (c) 2025 María Soledad Gesteira, Soledad Rojas Novoa, Carla Villalta https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/64202 Tue, 01 Apr 2025 00:00:00 +0000 Dos fios tecidos pelas mães de favela em meio ao luto e à vida precária https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/63997 <p>Este artigo apresenta um conjunto de reflexões que partem de pesquisas realizadas com mães e familiares de vítimas de violência estatal na cidade do Rio de Janeiro, com enfoque na luta de Ana Paula, Mãe de Manguinhos (RJ) e de Gláucia, Mãe Sem Fronteiras do Chapadão (RJ). Analisamos como as mães tecem os fios da luta, como articulam suas ações coletivas em contraposição às práticas e representações acerca da violência urbana. Tais representações operam o amálgama entre distintas dimensões raciais, de gênero, de classe e etárias, produzindo nos lugares das “margens” uma distribuição desigual da vida em sociedade, permitindo que vidas possam ser descartadas, enquanto outras são protegidas. Foi realizada pesquisa de campo em caráter etnográfico, com estudo de caso e entrevistas com mães de vítimas de violência estatal em distintos territórios. Sua principal contribuição explora tanto as dinâmicas das suas interações nos órgãos do sistema de justiça criminal, quanto a compreensão do cuidado e de como ele aparece nos repertórios de luta das mães a partir de uma perspectiva coletiva, que desenraiza o cuidado da esfera privada e doméstica ou familiar, trazendo-o para o âmbito público, do cuidado a ser exercido não somente consigo, com outras mães e familiares, mas também com os jovens de todas as favelas.</p> Brena Costa de Almeida, Márcia da Silva Pereira Leite Copyright (c) 2025 Brena Costa de Almeida, Márcia da Silva Pereira Leite https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/63997 Tue, 01 Apr 2025 00:00:00 +0000 Mulheres lésbicas, inseminação caseira e maternidade: a escolha como resistência https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/63714 <p>O artigo discute a inseminação caseira entre mulheres lésbicas, focando no conceito de “escolha” como exercício de poder e resistência em contextos minoritários. A metodologia empregada envolveu entrevistas de manejo cartográfico com nove mães lésbicas de classe média baixa que optaram pela inseminação caseira. Os resultados destacam que a escolha pelo método de inseminação caseira foi fortemente influenciada pela questão financeira e pelo desejo de manter o controle sobre o processo reprodutivo. Ademais, o método permitiu que essas mulheres mantivessem certa privacidade e autonomia, escolhendo os doadores de forma direta e mantendo ou não contato com eles, podendo optar. Observou-se que a inseminação caseira se configura também como uma forma de resistência às normas tradicionais de reprodução. Este método permite que mulheres lésbicas exerçam maior controle e tomem decisões que refletem seus valores pessoais e de família, apesar das complexidades e desafios legais e sociais que podem surgir, mesmo em um momento em que a maternidade lésbica é mais palatável socialmente. Embora a inseminação caseira emerja como um método significativo para muitas mulheres que buscam a maternidade dentro de relacionamentos lésbicos, proporcionando uma opção viável que alinha desejos pessoais com possibilidades práticas, ainda está submetida a decisões judiciais que apontam para a fragilidade dos laços legais e um certo desdém em relação a famílias constituídas por casais de mulheres.</p> Roberta Gomes Nunes, Anna Paula Uziel Copyright (c) 2025 Roberta Gomes Nunes, Anna Paula Uziel https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/63714 Tue, 01 Apr 2025 00:00:00 +0000 Matica: migrantes venezuelanos e redes migratórias em Boa Vista Roraima https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/58818 <p>Migração é um fenômeno contemporâneo no Brasil. O mais acentuado é a dos venezuelanos que entram ao território brasileiro a partir da cidade de Pacaraima que faz fronteira com a Venezuela. Esta cidade está localizada no Estado de Roraima. A maioria teve como destino em um primeiro momento a capital deste Estado A migração é um fenômeno contemporâneo no Brasil, destacando-se especialmente a dos venezuelanos que entram no território brasileiro pela cidade de Pacaraima, na fronteira com a Venezuela. Esta cidade está localizada no Estado de Roraima, e a maioria dos migrantes tem como destino inicial a capital deste Estado. O presente artigo possui dois objetivos. Primeiramente, compreender a construção das redes migratórias em três espaços de sociabilidade dos migrantes venezuelanos. Em segundo lugar, analisar o papel dessas redes no processo migratório venezuelano em Boa Vista, Roraima. Para atingir esses objetivos, descrevemos a organização e a dinâmica de três espaços de sociabilidade chamados de maticas. Esses espaços estão localizados no perímetro urbano da capital do estado de Roraima. Os migrantes venezuelanos utilizam esses espaços para oferecer sua força de trabalho de maneira informal, uma vez que não têm interesse no trabalho formal, devido a estratégias de sobrevivência. Nossa metodologia incluiu pesquisa bibliográfica sobre a migração venezuelana e a realização de etnografia participante, na qual ouvimos as narrativas de três migrantes venezuelanos, os integrantes mais antigos de cada espaço. Seguindo a abordagem de Clifford Geertz (1989), buscamos interpretar em segunda ou terceira mão a cultura dos migrantes que interagem nesses espaços. As maticas funcionam como redes de acolhimento migratório tanto em âmbito nacional quanto internacional. Nesses espaços, são construídas redes pessoais, sociais e migratórias, permitindo que os migrantes enfrentem a exclusão a que são submetidos por meio da interiorização da Operação Acolhida, conforme relatado por nossos interlocutores.</p> Germano Lopes Ângelo, Olendina de Carvalho Cavalcante Copyright (c) 2024 Germano Lopes Ângelo, Olendina de Carvalho Cavalcante https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/58818 Thu, 02 Jan 2025 00:00:00 +0000 Uma análise dos discursos conservadores sobre “ideologia de gênero” a partir dos estudos queer e do feminismo negro decolonial https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/58826 <p>A intensificação de conflitos envolvendo direitos sexuais e reprodutivos tem sido tratada por distintos segmentos conservadores da sociedade brasileira como um ataque às tradições coloniais hierarquicamente consolidadas no Ocidente a partir de discursos encontrados em perspectivas teóricas orientadas tanto pelo pensamento escolástico, quanto pela psicologia evolutiva, difundida por figuras que só puderam se aproximar por meio da influência direta de Olavo de Carvalho, assim como de seus alunos e alunas, a exemplo de Ana Caroline Campagnolo. É por meio do reconhecimento desse embate abarcando perspectivas antagônicas sobre gênero e sexualidade que este artigo propõe uma análise genealógica sobre o uso da noção “ideologia de gênero”, tomando os estudos queer e o feminismo negro decolonial como ponto de partida, em contraposição aos discursos conservadores. Este texto encontra-se dividido em três partes: na primeira, serão apresentados os seus antecedentes e os consequentes eventos conservadores utilizados na legitimação de seus discursos; na segunda, será realizada uma análise sobre os principais referenciais teóricos mobilizados por autores que adotam uma postura reativa em relação aos estudos sobre gênero e sexualidade no Brasil; e por fim, na derradeira parte, evidenciaremos como que a crença na existência de uma natureza humana e sexual inata universalmente diferenciada entre homens e mulheres não se sustenta, quando tomamos como referência diversificadas pesquisas hodiernas orientadas pelos estudos queer e feminismo negro decolonial.</p> Pablo Ornelas Rosa, Jésio Zamboni, Breno Buxton dos Reis Vieira Copyright (c) 2024 Pablo Ornelas Rosa, Jésio Zamboni, Breno Buxton dos Reis Vieira https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/58826 Thu, 02 Jan 2025 00:00:00 +0000 Relações de contato na Terra Indígena Mãe Maria (PA): O mito Hàkti mẽ Kuhỳ (Gavião real e Fogo) https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/58881 <p>Durante a segunda metade do século XX, a Amazônia foi palco da intensificação das ditas políticas de colonização do Estado brasileiro. Esse processo teve como consequência o deslocamento compulsório do povo indígena Gavião (Kỳikatêjê, Parkatêjê e Akrãtikatêjê) para a Terra Indígena Mãe Maria, localizada no sudeste do Pará. O artigo analisa como as lideranças indígenas pensam o mito Hàkti mẽ Kuhỳ (Gavião real e Fogo) enquanto discurso cuja interpretação é mobilizada à luz das vicissitudes do contexto das tratativas das relações com a mineradora Vale S/A, situa as articulações internas das alianças intergrupais, as estratégias discursivas e certas compreensões nos usos de sua própria língua e da língua portuguesa e na defesa dos interesses territoriais. A orientação metodológica da pesquisa de campo antropológica, se situa no acompanhamento das relações entre os Gavião e a Vale S/A entre 2018 e 2022 no âmbito das políticas de renovação de convênio, no registro das reuniões, encontros dos caciques e das implicações dos saberes tradicionais em situações de conflito. A conjuntura das lutas e formas de organização Gavião nos últimos anos, sublinhando rapidamente a complexidade da vida indígena na Terra Indígena Mãe Maria são articuladas ao mito referenciado como parte do próprio processo de transformação da sociedade e da cultura, sendo, portanto, chave de leitura significativa no intento de perceber como os termos próprios do pensamento indígena Gavião são pensados a partir do contato com a presença não indígena.</p> Jerônimo da Silva e Silva, Rodrigo da Costa Caetano Copyright (c) 2024 Jerônimo da Silva e Silva, Rodrigo Costa Caetano https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/58881 Thu, 02 Jan 2025 00:00:00 +0000 Decisões eleitorais e a “aceitação” da diversidade sexual e de gênero na família: conflitos e conciliações entre “pessoas trans” e seus familiares nas eleições de 2018 para a presidência do Brasil https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/59337 <p>Este artigo discute os dilemas, tensionamentos e embates vividos por “pessoas trans”, travestis e transexuais, e suas famílias de origem durante a campanha eleitoral de 2018 para a Presidência da República. O objetivo é compreender como as disputas na arena política envolvendo moralidades sexuais, concepções de gênero e sexualidade e valores familiares foram experienciadas no cotidiano dos sujeitos com suas famílias. A problemática é relevante porque evidencia a permeabilidade da política à vida íntima, contribuindo para entender em que medida relações com familiares trans ou homossexuais têm ou não reflexo nas preferências de eleitores por candidatos considerados progressistas ou conservadores nas pautas relacionadas à diversidade sexual e de gênero. Os dados resultam de pesquisa de campo etnográfica realizada ao longo de 14 meses, entre 2018 e 2019, em João Pessoa (PB), em um ambulatório do “Processo Transexualizador” do Sistema Único de Saúde (SUS), em centros de políticas públicas para homossexuais, travestis e transexuais e em atividades de ativismo de uma organização de famílias de “filhos LGBT+”. Também foram realizadas entrevistas semiestruturadas, em profundidade, com 21 homens trans, mulheres trans e travestis e com 14 familiares de sujeitos transexuais. A pesquisa evidenciou como conflitos no campo da diversidade sexual e de gênero que ganharam relevo no debate público durante as eleições produziram efeitos variados nos arranjos de “aceitação” que preservavam as relações familiares, mobilizando decisões de voto e adesão às candidaturas identificadas como contrárias ou favoráveis aos direitos de minorias sexuais e de gênero.</p> Arthur Leonardo Costa Novo Copyright (c) 2024 Arthur Leonardo Costa Novo https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/59337 Thu, 02 Jan 2025 00:00:00 +0000 O ethos dos territórios periféricos do mundo colonial: um pensar a partir dos corpos, do poder e da subjetivação https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/59566 <p>Partindo de uma abordagem transdisciplinar, este ensaio filosófico versa sobre os processos de subjetivação configurados nos territórios periféricos do mundo colonial. Propõe-se uma leitura compreensiva sobre o legado moral das relações coloniais-escravistas, no que se refere à constituição do ethos ainda vigente nesses territórios. Está pautado nas contribuições de pensadores associados a campos como os da Teoria do Reconhecimento, da Análise do Discurso, da Analítica do Biopoder e dos Estudos Coloniais e Decoloniais, para descrever e conceitualizar formas normativas histórica e politicamente constituídas por meio das quais o pleno reconhecimento da humanidade — enunciada conforme os parâmetros normativos europeus — foi e segue sendo negado aos corpos que habitam as periferias do mundo colonial. Afirma que o perfil ético e valorativo configurado nas periferias do mundo colonial é atualizado, desde o nascimento da Era Moderna, pela instituição de discursos e práticas reiteradas que operam reduzir o status moral de incontáveis corpos, remetendo-os à condição de não pessoas. Assim, lança mão da noção de corpos periféricos para descrever um modo de subjetivação que pode recair sobre incontáveis corporalidades e vivências marcadas pela experiência da violência colonial. Trata-se de imaginar uma categoria de inteligibilidade ético-política que inscreve todos os corpos historicamente marcados pelo domínio moderno-colonial, mesmo que esses já não habitem os territórios periféricos do mundo. De tal modo,a constituição do ethos dos territórios coloniais passa a ser lido enquanto um processo coletivo de produção dos sujeitos sociais acionados por dispositivos caracteristicamente modernos de subjetivação, como os dispositivos da raça, da classe, da capacidade e do gênero, que reproduzem e atualizam incessantemente as configurações de um biopoder colonial.</p> Artur Mamed Cândido, Marianna Holanda Copyright (c) 2024 Artur Mamed Cândido, Marianna Holanda https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/59566 Thu, 02 Jan 2025 00:00:00 +0000 “Pele alvo”: o suspeito natural. Considerações sobre a prisão injusta do músico Luiz Justino https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/60080 <p>Este artigo analisará um patente paradoxo: a mesma sociedade que apoia e investe em programas e projetos de inclusão social e que pretende, com muitas dessas ações, discutir e reparar historicamente o lugar atribuído à população negra em nossa sociedade é aquela que, sem titubear, ceifa qualquer possibilidade de ascensão e de representatividade dessa mesma população quando posta à prova, como foi o caso de Luiz Justino. Músico integrante da Orquestra de Cordas da Grota – projeto social de ensino de música erudita localizado na Grota do Surucucu, uma “comunidade” da Zona Sul de Niterói, Rio de Janeiro –, Luiz, jovem e negro, sofreu uma injustificável abordagem no centro de Niterói no dia 2 de setembro de 2020 e imediatamente foi conduzido à delegacia, onde ficou detido até ser transferido no dia seguinte para o presídio de Benfica. Em virtude da grande mobilização dos integrantes da Orquestra junto à mídia e aos movimentos sociais comprometidos com o antirracismo, o m úsico teve sua prisão revogada no dia 6 de setembro de 2020 e foi absolvido do processo no dia 9 de junho de 2021. A etnografia que dá base a este artigo foi realizada por meio da observação direta ao acompanhar os ensaios e apresentações da Orquestra, através de entrevistas com os interlocutores do campo e da análise da repercussão do caso na mídia, uma vez que a prisão do músico e seus desdobramentos foram acompanhados por todo o espectro da mídia, configurando-se como um “caso de repercussão”.</p> Beatriz Fernandes Coelho Gomes, Felipe Berocan Veiga Copyright (c) 2024 Beatriz Fernandes Coelho Gomes, Felipe Berocan Veiga https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/60080 Thu, 02 Jan 2025 00:00:00 +0000 Laudos antropológicos em contextos quilombolas: breve ensaio bibliográfico sobre a produção brasileira https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/61348 <p>Neste texto, temos por objetivo apresentar a revisão bibliográfica sobre a produção antropológica referente a produção de laudos antropológicos em contextos quilombolas no Brasil. Em termos metodológicos, empreendemos buscas em publicações da Associação Brasileira de Antropologia, especialmente as referências recorrentes em documentos e na produção científica de integrantes do Comitê Quilombos. Dessa forma, adotamos os seguintes descritores nas buscas: “direitos humanos”, “terras de preto”, “territorialidades quilombolas”, “comunidades negras rurais”, “quilombos”, “conflitos socioambientais”, “laudos/perícias” e “ética” e, em uma segunda etapa, selecionamos os principais livros e coletâneas. Assim, em uma terceira etapa, foram realizadas buscas de artigos científicos usando os descritores anteriores em plataformas como a Scielo, Academia Edu, OasisBr. e Google Acadêmico. Ao final do texto, consideramos que o artigo 68 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988 foi um marco na trajetória de luta do movimento nacional quilombola, mas impôs nos anos seguintes a necessidade de sua implementação no âmbito governamental. Nesse imbróglio, identificamos uma trama de sujeitos envolvidos como a sociedade civil organizada, a Associação Brasileira de Antropologia, Ministério Público Federal, Instituto Nacional de Reforma Agrária, Fundação Cultural Palmares, pesquisadores/as, acadêmicos/as. No entanto, ainda que tenhamos percebido o avanço de políticas públicas na esfera governamental, a titulação dos territórios quilombolas não tem sido efetivada pelo Estado brasileiro.</p> Rosânia Oliveira do Nascimento Copyright (c) 2024 Rosânia Oliveira do Nascimento https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/61348 Thu, 02 Jan 2025 00:00:00 +0000 Entre a rua e aldeias: mobilidade, memória e retomada Pankaxuri (AL) https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/61344 <p>O artigo aborda a mobilidade e a elaboração da memória de uma família indígena Pankaxuri no processo de retomada da Cachoeira do Tamanduá, uma área localizada no agreste alagoano, Nordeste do Brasil. Desde uma abordagem etnográfica, analisa as atuais disputas entre diferentes atores sociais e instituições, além da heterogeneidade de trajetórias das famílias indígenas que habitam a região e que, em diferentes situações históricas, foram e são diversamente impactadas pela ação de Estado. O trabalho busca demonstrar que a mobilidade propiciou o convívio entre famílias que, compartilhando a condição de desaldeadas e o mesmo contexto experiencial, caracterizado por uma posição de desigualdade em relação a outras famílias indígenas, refletem sobre a própria condição, articulam-se e engajam-se na luta pela terra. O agenciamento de memórias, entidades e conhecimentos que essa reivindicação territorial impulsiona, delineia específicos territórios que desafiam as fronteiras físicas e administrativas das Terras Indígenas, viabilizando tanto a continuação das formas organizativas indígenas, quanto a atualização de coletivos étnicos. A elaboração da memória pelos/as membros da atual comunidade Pankaxuri é atrelada à restauração de sua reputação moral cuja demonstração pública, realizada por meio do discurso emocional, vem permitindo a ressignificação das perdas e dos traumas gerados por repetidas experiências de expulsões e deslocamentos, aglutinando famílias indígenas que se engajam em um projeto coletivo de vida entre parentes.</p> Claudia Mura, Wemerson Ferreira da Silva Copyright (c) 2024 Claudia Mura, Wemerson Ferreira da Silva https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/61344 Thu, 02 Jan 2025 00:00:00 +0000 Uma antropologia transversal entre Moçambique e Portugal: para além dos sentidos https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/64061 <p>Esta resenha tem como finalidade apresentar o livro <em>O cheiro de sangue de ovelha</em>, do antropólogo Paulo Granjo, que apresenta, em forma de relato e conto, resultados de vários anos de convivência, trabalho e observação sistemática entre médicos tradicionais de Maputo, Moçambique. A leitura atenta do livro de Granjo nos faz perceber que, renunciando às formas mais convencionais de apresentar resultados de pesquisas antropológicas e seguindo uma prática também já consolidada na antropologia, o autor apresenta com riqueza de detalhes esse mundo pelo qual transitou e transita, evidenciando práticas e sentidos socialmente compartilhados pelos curandeiros e sua clientela, sem, contudo, confundir sua condição de <em>outsider</em>. Ao longo dos seis capítulos (distribuídos em 96 páginas) e do glossário cultural acrescentando ao final do livro, Granjo nos faz viver com ele medos, desconfianças, sentimentos e emoções diversas nas quais mergulhou, principalmente durante os ritos de cura aos quais se submeteu em Maputo e que culminaram no sacrifício ritual de uma ovelha presa às suas costas. As imagens possibilitadas pela escrita se fundem às 23 fotografias reproduzidas ao longo do texto, de modo que, mesmo conciso, o livro termina por assumir características de uma descrição densa do universo observado. Portanto, ao resenhar esta obra, esperamos despertar em futuros leitores e leitoras tanto o interesse quanto o reconhecimento da importância desta obra para a antropologia e para as Ciências Sociais.</p> Patrício Carneiro Araújo Copyright (c) 2025 Patrício Carneiro Araújo https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/64061 Thu, 06 Mar 2025 00:00:00 +0000 Justiça versus Administração de Conflitos: equidade e comunicação na trajetória de Luís Roberto Cardoso de Oliveira https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/66809 <p>Neste artigo, discuto Administração de Conflitos e Justiça: As Pequenas Causas em um Juizado nos EUA, de Luís Roberto Cardoso de Oliveira. Publicado em 2023, o livro consiste na versão traduzida da tese de doutorado que o autor defendeu no Departamento de Antropologia de Harvard em 1989. Como estratégia de leitura, recuperei dois termos chave do título original – fairness e communication –, com vistas a enfatizar os pontos de vista etnográfico, normativo e conceitual que orientam o trabalho. Em termos gerais, Administração de Conflitos e Justiça é tributário tanto da profunda influência dos estudos de comunicação nas ciências sociais quanto do compromisso, etnograficamente respaldado, com a justiça ou equidade como bem universalizável. O trabalho questiona a razão relativista – instrumental e utilitária - então prevalente na Legal Anthropology mediante um foco nas intuições morais e argumentos dos diferentes atores em settings judiciários. Especificamente, Administração de Conflitos e Justiça propõe um diálogo com a obra Jürgen Habermas, em sua reelaboração dos problemas da racionalidade instrumental, da reificação e da legitimidade, além de apresentar um panorama dos debates constitutivos da Antropologia do Direito. A tese recém-traduzida lança as bases para um percurso crítico e particularmente sensível às disparidades entre as expectativas cidadãs de justiça e a prática judiciária – nos EUA e no Brasil, ontem e hoje.</p> Daniel Mendonça Lage da Cruz Copyright (c) 2025 Daniel Mendonça Lage da Cruz https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/66809 Mon, 24 Mar 2025 00:00:00 +0000 A Dádiva em todo lugar: notas a propósito do centenário da obra-prima de Marcel Mauss https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/63354 <p>Neste texto, procuro discutir a respeito da importância do <em>Ensaio sobre a Dádiva</em>, após quase um século de sua publicação original. De modo particular, busco chamar atenção para alguns debates mais significativos em torno da obra, bem como refletir acerca de desdobramentos desse clássico da Antropologia. Sem a pretensão de ser exaustivo e consciente de que há, possivelmente, análises muito mais profícuas sobre as contribuições teóricas do seu autor, esse texto é um convite à reflexão acerca da atualidade da obra-prima de Marcel Mauss. A partir da releitura do Ensaio e da análise de comentaristas e de trabalhos em diferentes áreas na antropologia procuro chamar atenção para a importância da obra maussiana para a compreensão teórica de aspectos no Direito, relações de parentesco, formas de organização política, questões relativas à economia, religião, o tema das festas e da cultura popular, entre outros aspectos. Uma obra, em outras palavras, cujas fronteiras e influências interdisciplinares não deixam de se expandir, ao mesmo tempo em que continua sendo referência central para compreensão de diferentes aspectos sob a perspectiva da Antropologia e para nos orientar como coletividade nesses tempos desnorteantes em que vivemos. Em outros termos, mesmo depois de quase 100 anos de críticas, debates e desdobramentos, a contribuição teórica e dimensão totalizante do Ensaio da Dádiva continuam incontestáveis e suas influências estão em todo o lugar.</p> Leonardo Leal Esteves Copyright (c) 2025 Leonardo Leal Esteves https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/63354 Wed, 05 Feb 2025 00:00:00 +0000