Políticas de Povoamento-Colonização-Reprodução: a “brancura”, a “infância” e o “feminino” na gestão da Amazônia do futuro
DOI :
https://doi.org/10.22409/antropolitica2026.v58.i1.a68288Mots-clés :
Estradas, Políticas de colonização, Políticas de reprodução, Racismo, Amazônia.Résumé
Nesse artigo, recupero aspectos do plano de colonização em larga escala da Amazônia implementado no contexto da Ditadura Civil-Militar, com o objetivo de demonstrar como as estradas da integração nacional — e os processos estatais-coloniais movimentados por elas nesse contexto — foram produzidas enquanto soluções para um problema de desenvolvimento atribuído a um problema demográfico que foi tratado (também) enquanto um problema racial a ser gerido a partir de uma política particular de reprodução e povoamento. A análise proposta é resultado de investigação de doutorado sobre os dispositivos que sustentam a durabilidade colonial-racial na Amazônia, onde busquei demonstrar como as estradas da integração nacional movimentam gramáticas raciais de longo-prazo constitutivas do processo de formação de Estado no Brasil. No marco dessa reflexão mais ampla, volto-me às gramáticas presentes em histórias de famílias, mulheres e crianças reunidas ao longo de meu trabalho de campo e em reportagens-propagandas sobre as políticas de integração nacional produzidas pela Revista Manchete para abordar o lugar atribuído à brancura, ao feminino e à infância em projeções sobre o futuro próspero que chegaria à Amazônia a partir das estradas. No artigo, argumento que as políticas estatais de colonização conduzidas na Amazônia devem ser pensadas como vetor e espelho da retórica constitutiva das disputas sobre futuros desejáveis para a nação, onde projeções de modernidade foram subsumidas à promoção do branqueamento a partir de ações diretas e indiretas de controle da reprodução e da natalidade.
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