Saúde como acontecimento: afetos, corpos e coletividades na filosofia de Espinosa
DOI:
https://doi.org/10.22409/antropolitica2026.v58.i1.a66631Palavras-chave:
Saúde, Imaginação, Medicina, Corpo, Saberes.Resumo
Este ensaio explora um encontro especulativo entre a filosofia de Baruch de Espinosa e o campo multifacetado da saúde. A saúde, no pensamento espinosano, é compreendida como um acontecimento — uma dinâmica relacional em que corpos, afetos e ideias interagem para ampliar a potência de existir. Longe de ser um estado fixo, a saúde emerge como uma prática coletiva enraizada no conatus, o esforço de perseverar na existência, e na composição de encontros que expandem ou restringem as potências vitais. Mais do que uma categoria biomédica ou um conceito meramente técnico, a saúde se apresenta como um processo dinâmico de atravessamentos entre forças humanas e não humanas, entrelaçando subjetividades, materialidades e ecologias afetivas. Enriquecida pela crítica de Isabelle Stengers à hegemonia da medicina moderna, que frequentemente silencia saberes e outras práticas de cura e cuidado, essa perspectiva reimagina a saúde para além da redução técnica. Essa abordagem desafia o monopólio epistêmico da biomedicina e sua tendência a universalizar definições de doença e normalidade, propondo uma ecologia do cuidado na qual diferentes saberes e experiências se entrelaçam em um horizonte de composição e experimentação. Ao acolher a imaginação como força criadora, Espinosa e Stengers inspiram a redefinição da saúde como um processo ético e cosmopolítico, em que o cuidado se torna a arte de compor mundos mais habitáveis e alegres. Nesse sentido, o ato de cuidar não se reduz à aplicação de protocolos técnicos, mas se manifesta como um gesto político e existencial que afirma modos de vida mais potentes e plurais.
Downloads
Referências
CAMARGO JÚNIOR, Kenneth Rochel de. A razão inconstante: ciência, saber e legitimação social. In: JACÓ-VILELA, Ana Maria; SATO, Leny (org.). Diálogos em psicologia social. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2012. p. 1-24.
CHAUI, Marilena. Espinosa: uma filosofia da liberdade. São Paulo: Moderna, 1995.
CHERTOK, Léon; STENGERS, Isabelle. O coração e a razão: a hipnose de Lavoisier a Lacan. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990.
CHERTOK, Léon; STENGERS, Isabelle. L’hypnose: blessure narcissique. Paris: Les Empêcheurs de penser en rond, 1999.
DELEUZE, Gilles. Spinoza e o problema da expressão. São Paulo: Perspectiva, 1981.
Deleuze, Gilles. Spinoza: Practical Philosophy. San Francisco: City Lights Books, 1997.
DELEUZE, Gilles. Espinosa: filosofia prática. São Paulo: Escuta, 2002.
DELEUZE, Gilles. Spinoza: Philosophie Pratique. Paris: Minuit, 2003.
DELEUZE, Gilles. En medio de Spinoza. 2. ed. Buenos Aires: Cactus, 2008.
ESPINOSA, Baruch de. Ética. In: ESPINOSA, Baruch de. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973. p. 79-312.
ESPINOSA, Baruch de. Tratado teológico-político. Tradução de Diogo Pires Aurélio. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
ESPINOSA, Baruch de. Ética: edição bilíngue. Tradução de Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2007.
GARVER, Eugene. Spinoza and the cunning of imagination. Chicago: University of Chicago Press, 2018.
HOWIE, Gillian. Deleuze and Spinoza: aura of expressionism. Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2002.
MATHERON, Alexandre. Individu et communauté chez Spinoza. Paris: Minuit, 1969.
MIGNINI, Filippo. Introduzione a Spinoza. Bari: Laterza, 1999.
MOL, Annemarie; BERG, Marc. Differences in Medicine: Unraveling Practices, Techniques, and Bodies. Durham: Duke University Press, 1998.
NADLER, Steven. Spinoza and Consciousness. Mind, [s. l.], v. 117, n. 467, p. 575-601, 2008.
POLLOCK, Frederick. Spinoza: his life and philosophy. London: Adamant, 2005.
RAMOND, Charles. Vocabulário de Espinosa. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010.
STENGERS, Isabelle. Quem tem medo da ciência? São Paulo: Siciliano, 1990.
STENGERS, Isabelle. Le médecin et le charlatan. In: NATHAN, Tobie; STENGERS, Isabelle (ed.). Médecins et sorciers. Paris: Les Empêcheurs de Penser en Rond, 1995. p. 156-158.
STENGERS, Isabelle. A invenção das ciências modernas. Tradução de Max Altman. São Paulo: Editora 34, 2002a.
STENGERS, Isabelle. L’hypnose entre magie et science. Paris: Les Empêcheurs de penser en rond, 2002b.
STENGERS, Isabelle. Au temps des catastrophes: résister à la barbarie qui vient. Paris: La Découverte, 2009.
STENGERS, Isabelle. A proposição cosmopolítica. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, n. 62, p. 207-230, 2016. Disponível em: https://doi.org/10.11606/issn.2316-901X.v0i69p442-464. Acesso em: 16 dez. 2025.
STENGERS, Isabelle. Uma outra ciência é possível: manifesto por uma desaceleração das ciências. São Paulo: Ubu, 2018.
VELHO, Otávio. Espinosa e a antropologia: sugestões para um diálogo. Síntese, Belo Horizonte, v. 42, n. 132, p. 5-13, 2015. Disponível em: https://doi.org/10.20911/21769389v42n132p5-13/2015. Acesso em: 16 dez. 2025.
VELHO, Otávio. Razão e imaginação para todos os tempos. Tensões Mundiais, Fortaleza, v. 16, n. 32, p. 17-46, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.33956/tensoesmundiais.v16i32.4144. Acesso em: 16 dez. 2025.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 Pedro Paulo Gomes Pereira

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
O conteúdo da revista Antropolítica, em sua totalidade, está licenciado sob uma Licença Creative Commons de atribuição CC-BY (http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/deed.pt).
De acordo com a licença os seguintes direitos são concedidos:
- Compartilhar – copiar e redistribuir o material em qualquer suporte ou formato;
- Adaptar – remixar, transformar, e criar a partir do material para qualquer fim, mesmo que comercial;
- O licenciante não pode revogar estes direitos desde que você respeite os termos da licença.
De acordo com os termos seguintes:
- Atribuição – Você deve informar o crédito adequado, fornecer um link para a licença e indicar se alterações foram feitas. Você deve fazê-lo em qualquer maneira razoável, mas de modo algo que sugira que o licenciante o apoia ou aprova seu uso;
- Sem restrições adicionais — Você não pode aplicar termos jurídicos ou medidas de caráter tecnológico que restrinjam legalmente outros de fazerem algo que a licença permita.