Avós que criam: relações de cuidado intergeracionais em favelas cariocas

Autores

DOI:

https://doi.org/10.22409/antropolitica2026.v58.i1.a68309

Palavras-chave:

Avós cuidadoras, Cuidado intergeracional, Periferias urbanas, Penalidade materna, Envelhecimento.

Resumo

Este artigo examina o papel central das avós no cuidado cotidiano de crianças em bairros periféricos e favelas, a partir de pesquisa realizada na zona norte da cidade do Rio de Janeiro, Brasil. Em um contexto de queda das taxas de fecundidade e de mudanças no perfil demográfico, territórios periféricos continuam a apresentar taxas relativamente elevadas de natalidade, inclusive entre adolescentes, e são também marcados pela limitada provisão de infraestrutura de cuidados oferecida pelo Estado, o que complexifica os arranjos de cuidado de crianças pequenas. Nesse cenário, o estudo investiga a relevância do cuidado exercido pela família extensa — em particular pelas avós —, com foco em suas trajetórias de vida, nas relações com os netos e nas dinâmicas cotidianas do cuidar. Com base em entrevistas em profundidade realizadas com 11 avós residentes na zona norte do Rio de Janeiro, o artigo analisa como arranjos de criação conduzidos por essas mulheres emergem em contextos de precariedade socioeconômica, especialmente em situações marcadas por gestações não planejadas. Argumenta-se que o cuidado desempenhado por essas avós produz efeitos ambivalentes: por um lado, impõe sobrecargas associadas ao trabalho, à responsabilidade e ao desgaste emocional; por outro, mobiliza regimes de esperança e de futuro orientados ao bem-estar e à mobilidade social dos netos. Ao examinar mais detidamente as histórias de vida de quatro interlocutoras, o artigo evidencia tanto a intensidade do trabalho de cuidado quanto a agência dessas mulheres na sustentação da vida familiar e na negociação de expectativas em relação ao futuro de seus netos. A análise é desenvolvida em diálogo com teorias feministas e interseccionais sobre cuidado e políticas reprodutivas, destacando como desigualdades de gênero, classe e geração conformam os arranjos contemporâneos de cuidado em periferias urbanas.

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Biografia do Autor

  • Natalia Helou Fazzioni, Instituto Fernandes Figueira, Fundação Oswaldo Cruz

    Pesquisadora em Saúde Pública no Instituto Fernandes Figueira da Fundação Oswaldo Cruz. Doutora em Antropologia Cultural pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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Publicado

2026-04-01

Edição

Seção

Dossiê Temático

Como Citar

Avós que criam: relações de cuidado intergeracionais em favelas cariocas. (2026). Antropolítica - Revista Contemporânea De Antropologia, 58(1). https://doi.org/10.22409/antropolitica2026.v58.i1.a68309