Evasão: fugas de prisão e o impasse do encarceramento no Rio de Janeiro
DOI:
https://doi.org/10.22409/antropolitica2026.v58.i2.a69137Palavras-chave:
Presídios, Fugitividade, Emancipação, Travestis, Brasil.Resumo
O presente artigo examina o projeto brasileiro de encarceramento através da figura da evasão: o ato, muitas vezes temporário, de fugir da custódia penal. A evasão traça um caminho que atravessa as fronteiras entre a prisão e a liberdade, visto que as pessoas fogem frequentemente, voltando depois por vontade própria. Esse caminho representa um espaço para repensar o projeto brasileiro de encarceramento e as formas de vida que emergem para as pessoas, majoritariamente negras, cujas vidas são marcadas pelo contato íntimo e constante com o sistema de justiça criminal. Situo presídios e evasão como partes de uma história contínua de vida negra em fuga, que se tenciona com a emancipação no Brasil e na América. Constato que, embora a evasão não ofereça saída do fio punitivo da lei, produz outro modo de habitar o tempo e o território do encarceramento. As fugas abrem uma série de possibilidades pelas quais os encarcerados no Rio de Janeiro fraturam a lógica formal da sentença como processo linear e “progressivo”, produzindo, deste modo, outros ritmos de confinamento. Focando em duas travestis negras presas, delineio alguns desses movimentos evasivos e demonstro as falhas que elas revelam — tanto dentro das pretensões de legitimidade do sistema penal como dentro dos conceitos a que recorremos para analisar o encarceramento.
Downloads
Referências
AHMANN, Chloe. ‘It’s exhausting to create an event out of nothing’: slow violence and the manipulation of time. Cultural Anthropology, [s. l.], v. 33, n. 1, p. 142-171, 2018. Disponível em: https://doi.org/10.14506/ca33.1.06. Acesso em: 3 jun. 2022.
ALVES, Jaime Amparo. The anti-black city: police terror and black urban life in Brazil. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2018.
ANDRADE, Luma Nogueira de. Travestis na escola: assujeitamento e resistência à ordem normativa. Rio de Janeiro: Metanoia Editora, 2015.
ARAÚJO, Carlos Eduardo Moreira de. Cárceres imperiais: a Casa de Correção do Rio de Janeiro. Seus detentos e o sistema prisional no Império, 1830-1861. 2009. Tese (Doutorado em História) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2009.
BARBOSA, Antonio Rafael. ‘Grade de ferro? Corrente de ouro’! Circulação e relações no meio prisional. Tempo Social, São Paulo, v. 4, n. 1, p. 107-129. 2013. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0103-20702013000100006. Acesso em: 3 ago. 2020.
BERRY, Maya; ARGÜELLES, Claudia Chávez; CORDIS, Shanya; IHMOUD, Sarah; ESTRADA, Elizabeth Velásquez. Toward a fugitive anthropology: gender, race and violence in the field. Cultural Anthropology, [s. l.], v. 32, n. 4, p. 537-565, 2017. Disponível em: https://doi.org/10.14506/ca32.4.05. Acesso em: 31 jul. 2020.
BEY, Marquis. Cistem failure: essays on blackness and cisgender. Durham: Duke University Press, 2022.
BIONDI, Karina. Sharing this walk: an ethnography of prison life and the PCC in Brazil. Traduzido por John Collins. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2016.
BUENO, Samira; DENYER WILLIS, Graham. The exceptional prison. Public Culture, [s. l.], v. 31, n. 3, p. 645-663, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1215/08992363-7532775. Acesso em: 28 set. 2020.
CHALHOUB, Sidney. The precariousness of freedom in a slave Society (Brazil in the nineteenth century). International Review of Social History, [s. l.], v. 56, n. 3, p. 405-439, 2011. Disponível em: https://doi.org/10.1017/S002085901100040X. Acesso em: 3 jul. 2022.
CHANTRAINE, Gilles; MARTIN, Tomas Max. Introduction: toward a sociology of prison escape. In: MARTIN, Tomas Max; CHANTRAINE, Gilles (ed.). Prison breaks: toward a sociology of escape. Cham: Springer International Publishing, 2018. p. 1-29.
COLLINS, John. Revolt of the saints: memory and redemption in the twilight of Brazilian racial democracy. Durham: Duke University Press, 2015.
CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Banco nacional de monitoramento de presos. CNJ, Brasília, 2022. Disponível em: https://portalbnmp.cnj.jus.br. Acesso em: 20 jun.2022.
CONSELHO NACIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO. Sistema prisional em números. CNJ, Brasília, 2020. Disponível em: https://www.cnmp.mp.br/portal/relatoriosbi/sistema-prisional-em-numeros. Acesso em: 3 out. 2020.
DETENTOS são recapturados após fuga por buraco na parede de presídio no Rio. Extra, Rio de Janeiro, 20 dez. 2017. Disponível em: https://extra.globo.com/casos-de-policia/detentos-sao-recapturados-apos-fuga-por-buraco-na-parede-de-presidio-no-rio-22216539.html. Acesso em: 3 out. 2020.
DÍAZ BENÍTEZ, María Elvira; RANGEL, Everton. Evocações da escravidão: sobre sujeição e fuga em experiências negras. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 28, n. 63, p. 39-69, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0104-71832022000200002. Acesso em: 5 jul. 2022.
FLAUZINA, Ana Luiza Pinheiro. Corpo negro caído no chão: o sistema penal e o projeto genocida do estado brasileiro. 2006. Dissertação (Mestrado em Direito) – Universidade de Brasília, Brasília, 2006.
GATO, Matheus. O massacre dos libertos: sobre raça e república no Brasil (1888-1889). São Paulo: Editora Perspectiva, 2020.
GODOI, Rafael. O controle da pena: presos, defensores e processos nos circuitos do sistema de justiça. Dilemas: Revista de Estudos de Conflito e Controle Social, Rio de Janeiro, v. 10, n. 3, p. 389-411, 2017a. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/dilemas/article/view/14557. Acesso em: 25 jun. 2019.
GODOI, Rafael. Fluxos em cadeia: as prisões em São Paulo na virada dos tempos. São Paulo: Boitempo, 2017b.
GOMES, Flávio. Africans and petit marronage in Rio de Janeiro, ca. 1800-1840. Luso-Brazilian Review, [s. l.], v. 47, n. 2, p. 74-99, 2010. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/40985096. Acesso em: 3 jun. 2022.
HALBERSTAM, Jack. Unbuilding gender: trans* anarchitectures in and beyond the work of Gordon Matta-Clark. Places Journal, [s. l.], out. 2018. Disponível em: https://doi.org/10.22269/181003. Acesso em: 6 ago. 2022.
HARNEY, Stefano; MOTEN, Fred. The undercommons: fugitive planning and black study. Brooklyn: Autonomedia, 2013.
HARTMAN, Saidiya. Lose your mother: a journey along the Atlantic slave route. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2008.
HÉBERT, William. Trans rights as risks: on the ambivalent implementation of Canada’s groundbreaking trans prison reform. Canadian Journal of Law and Society/La Revue Canadienne Droit et Société, [s. l.], v. 35, n. 2, p. 221-244., 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1017/cls.2020.11. Acesso em: 8 ago. 2022.
HERINGER, Carolina. Beneficiados com “saidão” de Natal no Rio, 422 presos não voltam à cadeia. O Globo, Rio de Janeiro, 31 dez. 2019a. Disponível em: https://oglobo.globo.com/rio/beneficiados-com-saidao-de-natal-no-rio-422-presos-nao-voltam-cadeia-24166292. Acesso em: 3 out. 2020.
HERINGER, Carolina. Traficante preso é pego tentando fugir da cadeia vestido de mulher em Bangu. Extra, Rio de Janeiro, 6 ago. 2019b. Disponível em: https://extra.globo.com/casos-de-policia/traficante-pego-tentando-fugir-vestido-de-mulher-encontrado-morto-em-cela-de-bangu-1-23857373.html. Acesso em: 3 out. 2020.
HOLLOWAY, Thomas. Policing Rio de Janeiro: repression and resistance in a nineteenth-century city. Stanford: Stanford University Press, 1993.
JACKSON, George. Soledad brother: the prison letters of George Jackson. Chicago: Lawrence Hill Books, 1994.
JEAN, Martine. ‘A storehouse of prisoners’: Rio de Janeiro’s Correction House (Casa de Correção) and the birth of the penitentiary in Brazil, 1830-1906. Atlantic Studies, [s. l.], v. 14, n. 2, p. 216-242, 2017. Disponível em: https://doi.org/10.1080/14788810.2016.1240915. Acesso em: 4 ago. 2019.
JESUS, Jaqueline Gomes de. Operadores do direito no atendimento às pessoas trans. Revista Direito e Práxis, v. 7, n. 3, p. 537-556, 2016. Disponível em: https://doi.org/10.12957/dep.2016.25377. Acesso em: 3 jul. 2022.
LANCELLOTTI, Helena Patini. Tecnologias de governo, vigilância e transgressão: um estudo etnográfico sobre as tornozeleiras eletrônicas. Mediações: Revista de Ciências Sociais, Londrina, v. 23, n. 1, p. 141-169, 2018. Disponível em: http://dx.doi.org/10.5433/2176-6665.2018v23n1p141. Acesso em: 21 set. 2020.
MALLART, Fábio; RUI, Taniele. Cadeia ping-pong: entre o dentro e o fora das muralhas. Ponto Urbe: Revista do Núcleo de Antropologia Urbana da USP, São Paulo, v. 21, p. 1-16. Disponível em: https://doi.org/10.4000/pontourbe.3620. Acesso em: 15 dez. 2020.
MCKITTRICK, Katherine. Demonic grounds: black women and the cartogrophies of struggle. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2006.
MEDEIROS, Melanie. Marriage, divorce and distress in northeast Brazil: black women’s perspectives on love, respect and kinship. New Brunswick: Rutgers University Press, 2018.
MELOSSI, Dario; PAVARINI, Massimo. The prison and the factory: origins of the penitentiary system. London: Palgrave Macmillan, 2018.
MOORE, Hollis. Extralegal agency and the seart for safety in northeast Brazil: Moving beyond carceral logics. Cambridge Journal of Anthropology, [s. l.], v. 38, n. 1, p. 33-51, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.3167/cja.2020.380104. Acesso em: 15 dez. 2020.
NASCIMENTO, Abdias do. O quilombismo: documentos de uma militância pan-africanista. São Paulo: Editora Perspectiva, 2019.
NASCIMENTO, Beatriz. O conceito de quilombo e a resistência cultural negra. Revista Afrodiáspora, [s. l.], v. 3, n. 6-7, p. 41-49. 1985.
OLIVEIRA, Megg Rayara Gomes de. Why don’t you embrace me? Reflections on the invisibilisation of travestis and trans women in black social movements. Sur: International Journal on Human Rights, [s. l.], v. 15, n. 28, p. 167-179, 2018. Disponível em: https://heinonline.org/HOL/P?h=hein.journals/surij28&i=168. Acesso em: 10 ago. 2022.
PADOVANI, Natália Corazza. Confounding borders and walls: documents, letters, and the governacne of relationships in São Paulo and Barcelona prisons. Vibrant: Virtual Brazilian Anthropology, Brasília, v. 10, n. 2, p. 340-376, 2013. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S1809-43412013000200011. Acesso em: 24 jun. 2019.
PENGLASE, Ben. Living with insecurity in a Brazilian favela: urban violence and daily life. New Brunswick: Rutgers University Press, 2014.
RÉIS, João José; SILVA, Eduardo. Negociação e conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
RÉIS, João José; GOMES, Flávio. Introdução: a história da liberdade. In: RÉIS, João José; GOMES, Flávio (ed.). Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 9-25.
RICHARDS-CALATHES, Whitney. The story of Aya: penealogy, Black women’s kinship, and the carceral state. Feminist Anthropology, [s. l.], v. 2, n. 1, p. 50-64, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1002/fea2.12039. Acesso em: 3 jul. 2022.
RODRIGUES, Ellen; KHOURY, Eduardo. Brazil. In: DÜNKEL, Frieder; HARRENDORF, Stefan; VAN ZYL SMIT, Dirk. The impact of Covid-19 on prison conditions and penal policy. London: Routledge, 2022. p. 52-65.
SANDER, Vanessa. As bichas e os bofes na crise do sistema penitenciário. Cadernos Pagu, Campinas, n. 63, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1590/18094449202100630011. Acesso em: 3 jul. 2022.
SANTANA, Dora Silva. Mais viva! Reassembling transness, blackness, and feminism. TSQ: Transgender Studies Quarterly, [s. l.], v. 6, n. 2, p. 210-222, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1215/23289252-7348496. Acesso em: 28 set. 2020.
SANTOS, Maria-Fátima. Contested terrains and incubators of violence: carceral establishments in democratic Brazil. In: GUIA, Maria João; GOMES, Sílvia (ed.). Prisons, state, and violence. Cham: Springer International Publishing, 2019. p. 99-114.
SHANGE, Savannah. Play aunties and dyke bitches: gender, Generation and the ethics of queer black kinship. The Black Scholar, [s. l.], v. 49, n. 1, p. 40-54. 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1080/00064246.2019.1548058. Acesso em: 17 abr. 2021.
SMITH, Christen Anne. Towards a Black feminist model of Black Atlantic liberation: remembering Beatriz Nascimento. Meridians, [s. l.], v. 14, n. 2, p. 71-87, 2016. Disponível em: https://doi.org/10.2979/meridians.14.2.06. Acesso em: 2 ago. 2020.
SOJOYNER, Damien. Another life is possible: Black fugitivity and enclosed places. Cultural Anthropology, [s. l.], v. 32, n. 4, p. 514-536, 2017. Disponível em: https://doi.org/10.14506/ca32.4.04. Acesso em: 10 fev. 2019.
SPILLERS, Hortense. Mama’s baby, Papa’s maybe: an American grammar book. Diacritics, [s. l.], v. 17, n. 2, p. 65-81. 1987.
STANLEY, Eric. Introduction. Fugitive flesh: gender self-determination, queer abolition, and trans resistance. In: STANLEY, Eric; SMITH, Nat (ed.). Captive genders: trans embodiment and the prison industrial complex. Oakland, AK Press, 2011. p. 1-14.
STANLEY, Eric. Atmospheres of violence: structuring antagonism and the trans/queer ungovernable. Durham: Duke University Press, 2021.
TÚNEL de dez metros é descoberto no complexo de Gericinó. O Dia, Rio de Janeiro, 1 set. 2019. Disponível em: https://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2019/07/5658924-tunel-de-dez-metros-e-descoberto-no-complexo-de-gericino.html. Acesso em: 3 out. 2020.
VARGAS, João. Costa. Gendered antiblackness and the impossible Brazilian Project: emerging critical black Brazilian studies. Cultural Dynamics, [s. l.], v. 24, n. 1, p. 3-11, 2012. Disponível em: https://doi.org/10.1177/0921374012452808. Acesso em: 17 fev. 2018.
WALCOTT, Rinaldo. The Long Emancipation: Moving Toward Black Freedom. Durham: Duke University Press, 2021.
WILDER, Gary. The promise of freedom and the predicament of marronage: on Neil Roberts’s freedom as marronage. Small Axe: SX Salon, [s. l.], n. 24, 2017. Disponível em: https://smallaxe.net/sxsalon/reviews/promise-freedom-and-predicament-marronage-neil-robertss-freedom-marronage Acesso em: 13 ago. 2020.
YORK, Sara Wagner; OLIVEIRA, Megg Rayara Gomes de; BENEVIDES, Bruna. Manifestações textuais (insubmissas) travesti. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 28, n. 3, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1806-9584-2020v28n375614. Acesso em: 3 jul. 2022.
ZAMBONI, Marcio. O barraco das monas na cadeia dos coisas: notas etnográficas sobre a diversidade sexual e de gênero no sistema penitenciário. ARACÊ: Direitos Humanos em Revista, São José dos Pinhais, v. 4, n. 5, p. 93-115, 2017. Disponível em: https://arace.emnuvens.com.br/arace/article/view/135. Acesso em: 17 nov. 2020.
Downloads
Publicado
Edição
Secção
Licença
Direitos de Autor (c) 2026 David Christopher Thompson

Este trabalho encontra-se publicado com a Licença Internacional Creative Commons Atribuição 4.0.
O conteúdo da revista Antropolítica, em sua totalidade, está licenciado sob uma Licença Creative Commons de atribuição CC-BY (http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/deed.pt).
De acordo com a licença os seguintes direitos são concedidos:
- Compartilhar – copiar e redistribuir o material em qualquer suporte ou formato;
- Adaptar – remixar, transformar, e criar a partir do material para qualquer fim, mesmo que comercial;
- O licenciante não pode revogar estes direitos desde que você respeite os termos da licença.
De acordo com os termos seguintes:
- Atribuição – Você deve informar o crédito adequado, fornecer um link para a licença e indicar se alterações foram feitas. Você deve fazê-lo em qualquer maneira razoável, mas de modo algo que sugira que o licenciante o apoia ou aprova seu uso;
- Sem restrições adicionais — Você não pode aplicar termos jurídicos ou medidas de caráter tecnológico que restrinjam legalmente outros de fazerem algo que a licença permita.