Chamada para Dossiê "IA e mudanças climáticas: imaginários, visualidades e disputas narrativas no cotidiano do Sul Global"
A Revista Mídia e Cotidiano está com uma nova chamada aberta até 14 de setembro de 2026 para a 1ª edição de 2027. O tema do dossiê é: IA e mudanças climáticas: imaginários, visualidades e disputas narrativas no cotidiano do Sul Global. A editoria do Dossiê é de Michele Pucarelli (UFF); Anelise De Carli (PUCRS) e Denise Tavares (UFF). Aguardamos suas contribuições, lembrando que a Seção Livre segue aberta.
CHAMADA COMPLETA
Passados mais de dois anos da publicação do dossiê Diálogos interdisciplinares vindos do Sul Global: a IA na berlinda (2024), a Revista Mídia e Cotidiano entende que o debate segue pertinente, exigindo agora uma transição da análise para a compreensão de como a mediação cultural e a plataformização digital afetam a percepção cotidiana das crises humanitárias. Em especial, porque o cenário contemporâneo se vale de processos contínuos de expansão das imagens, imaginários e narrativas que verticalizam disputas, reconfigurando o consumo midiático diário. Agora, talvez como nunca antes, o espetáculo das catástrofes nas telas remodela a vivência comum, contribuindo para essa espécie de anestesia geral – ou ainda, uma anestética (Buck-Morss, 2013) –, a despeito da urgência de se reverter o fluxo de destruição do planeta.
De modo quase esquemático, podemos afirmar que o que se observa é uma profunda higienização estética das tragédias. Confrontamos hoje o espetáculo visual da degradação ambiental, onde biomas do Sul Global continuam sob o cerco do imperialismo visual. As promessas de sustentabilidade reiteradas pelas empresas de tecnologia digital colidem com práticas midiáticas em que a IA atua como agente de alto impacto ambiental, favorecendo a degradação de territórios geopoliticamente subalternizados e promovendo um novo paradigma de imaginário que substitui o testemunho por simulacros desterritorializados, apagando a rugosidade material da vida cotidiana. Como estamos produzindo sentido e visibilidade para a face invisível das TICs, como a IA, e percebendo os impactos culturais dos custos planetários da infraestrutura digital (energia, água e mineração) nos territórios (Crawford, 2022; Parikka, 2015)? Como podemos elaborar uma crítica aos modelos de desenvolvimento, à espetacularização do trauma (Sontag, 2003) sob a ótica da justiça climática e das narrativas do cotidiano, enfatizando o problema ecológico do dualismo (Plumwood, 1993) e perspectivas geopolíticas e racializadas (Yusoff, 2025)?
Diante da necessidade urgente de saber “onde aterrar” e de como se orientar politicamente no Antropoceno (Latour, 2018), este dossiê convida pesquisadores/as que têm se voltado às disputas narrativas em torno da crise ambiental, considerando o papel da IA nesse processo. Interessa-nos discutir sobre como a vida comum é afetada por uma “fúria das imagens” (Fontcuberta, 2016) que ameaça o valor documental, a memória e o “direito de olhar” (Mirzoeff, 2011), compreendendo também os direitos e deveres em disputa na cultura visual contemporânea (Azoulay, 2008) e a descolonização do imaginário (Rivera Cusicanqui, 2025),. Enfim, reconhecendo as práticas midáticas e cotidianas como campo de disputa por soberania e emancipação do/no Sul Global.
Possíveis eixos temáticos:
- Visualidades da catástrofe e a memória do cotidiano: Análises sobre a circulação de imagens nas redes sociais e o consumo midiáticos de eventos climáticos extremos no Sul Global (América Latina, África e Ásia); a tensão entre o testemunho documental e o simulacro algorítmico no dia a dia;
- Mediações culturais e disputas de narrativas: Disputas por soberania visual e o enfrentamento à hegemonia midiática no cenário pós-COP30. Práticas de resistência cultural e comunicacional no cotidiano das comunidades frente ao esvaziamento das imagens.
- Epistemologias de resistência e economia política da cultura: Diálogos entre os estudos de mídia, a comunicação e a ecologia interessados na promoção de perspectivas situadas e na preservação dos saberes tradicionais.
REFERÊNCIAS
AZOULAY, Ariella. The Civil Contract of Photography. NYC: Zone Books, 2008.
BUCK-MORSS, Susan. Aesthetics and Anaesthetics: Walter Benjamin's Artwork Essay Reconsidered. October 62, p. 3-41, 1992.
CRAWFORD, Kate. Atlas da IA: poder, política e custos planetários. São Paulo: Edições Sesc, 2025.
FONTCUBERTA, Joan. La furia de las imágenes: notas sobre la postfotografía. Barcelona: Galaxia Gutenberg, 2016.
LATOUR, Bruno. Onde aterrar? Como se orientar politicamente no Antropoceno. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020.
MIRZOEFF, Nicholas. The Right to Look: A Counterhistory of Visuality. Durham: Duke University Press, 2011.
PARIKKA, Jussi. A Geology of Media. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2015.
PLUMWOOD, Val. Feminism and the Mastery of Nature. London: Routledge, 1993.
RIVERA CUSICANQUI, Silvia. Sociologia da imagem: olhares ch'ixi a partir da história andina. São Paulo: Elefante, 2025.
SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. São Paulo: Hucitec, 1996.
SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
YUSOFF, Kathryn. Um bilhão de antropocenos negros ou nenhum. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2025.
CRONOGRAMA
- Prazo para submissão de artigos: até 14 setembro 2026
- Previsão de publicação: janeiro 2027
- Idiomas aceitos: português, espanhol e inglês.