Câmeras corporais de uso policial: política, governo e verdade

Autores

DOI:

https://doi.org/10.15175/gt60c935

Palavras-chave:

câmeras corporais, polícia, governo, verdade, Michel Foucault

Resumo

Nos últimos 15 anos, as câmeras corporais de uso policial foram elevadas à condição de principais antídotos contra diversas patologias globais do policiamento: a letalidade policial, o abuso de poder, a falta de transparência, os excessos discricionários, o racismo institucional, a crise de legitimidade das polícias, entre outras. Até agora, os resultados mistos de pesquisas empíricas aliados aos altos custos de implantação e operação das câmeras corporais, restringiram o debate majoritário à procura por relações causais entre o seu uso e o aprimoramento do policiamento em contextos hiperlocais. Ao lado disso, a adoção de câmeras corporais por policiais é vista pela literatura da área como uma simples decorrência de demandas civis por maior transparência e responsabilização. Como consequência, a literatura sobre o tema eclipsou uma pergunta de maior alcance, que nos parece fundamental endereçar: para além do debate meramente ideológico, que divide adeptos e opositores, que estratégias de poder estão em jogo, hoje, na difusão das câmeras corporais de uso policial? Para tentar oferecer uma resposta a essa pergunta, aproveitamo-nos dos principais achados empíricos disponíveis na literatura sobre o tema. Ao mesmo tempo, nós os problematizamos a partir das lutas sociais das quais emergem e dos agenciamentos tecno-sociais aos quais se integram. Isso nos permite avançar a hipótese de que o uso policial de câmeras corporais participam de jogos de poder que têm por objeto o governo e a verdade, como teorizou Michel Foucault no fim dos anos 1970, início dos anos 1980.

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Biografia do Autor

  • Murilo Duarte Costa Corrêa, Universidade Estadual de Ponta Grossa, Ponta Grossa, PR, Brasil

    Escreveu La Jurisprudencia de los cuerpos: crítica y clínica del derecho (Editorial Cactus, 2025), Ódio ao direito (Sobinfluencia, 2024) e Filosofia Black Bloc (Circuito/Hedra, 2020). Professor Associado de Teoria Política na UEPG, onde coordena o Laboratório de Teoria Social, Teoria Política e Pós-Estruturalismo (Labtesp). Affiliated Researcher na Vrije Universiteit Brussel, Bélgica. Investigador e professor visitante na Universidad de Buenos Aires, Argentina. Realizou Pós-doutorados em Political and Legal Theory (VUB) e Ciencias Sociales (UBA). Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Direito (UEPG). Doutor (USP) e Mestre (UFSC) em Filosofia e Teoria do Direito. Atualmente, trabalha com Deleuze e o direito, e com as transversais e os problemas sensíveis que atravessam o social, o político, as técnicas e tecnologias no direito contemporâneo. Os principais marcos de sua pesquisa vêm do pós-estruturalismo, e das filosofias do processo e da individuação.

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Publicado

2025-10-12

Como Citar

Câmeras corporais de uso policial: política, governo e verdade. (2025). Passagens: Revista Internacional De História Política E Cultura Jurídica, 17(3), 438-461. https://doi.org/10.15175/gt60c935

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