Leitura literária em contextos de privação de liberdade
formação crítica e indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão
Palavras-chave:
Leitura literária, Mediação de leitura, Remição de pena por leitura, Articulação entre pesquisa, ensino e extensão, Formação críticaResumo
Este artigo apresenta o relato de experiência de uma disciplina de graduação que integra ensino, pesquisa e extensão ao formar estudantes para atuar em projetos de leitura literária em penitenciárias e centros de ressocialização femininos, localizados em Votorantim, Piracicaba e Rio Claro, no âmbito da política de remição de pena por leitura. O tema central deste artigo é a função social da leitura literária em contextos de privação de liberdade e seu potencial formativo para os estudantes universitários. O problema que orienta o trabalho é como criar práticas que aproximem a universidade de contextos de privação de liberdade, promovendo a formação crítica dos estudantes e a intervenção social. O objetivo geral é apresentar e analisar a experiência da disciplina, destacando seus efeitos sobre a formação dos alunos e sobre as práticas de leitura em contexto prisional. Defende-se a hipótese de que a mediação de leitura e a elaboração criteriosa de pareceres sobre os relatórios produzidos pelas mulheres em privação de liberdade contribuem para desenvolver nos estudantes competências analíticas, argumentativas e éticas. A abordagem combina fundamentos das neurociências e da psicologia da leitura com uma reflexão crítica sobre os usos da literatura em práticas institucionais de remição. A metodologia inclui a análise dos relatórios de leitura das mulheres privadas de liberdade, o acompanhamento das atividades de mediação conduzidas pelos alunos e a avaliação da experiência formativa. Os resultados indicam que tanto pareceristas quanto mediadores ampliaram sua visão de mundo, suas habilidades de leitura e escrita e seu engajamento social, ao mesmo tempo em que refletiram criticamente sobre os limites e dilemas éticos da política de remição. A disciplina, em fase de contínuo aprimoramento, tem se mostrado um campo fértil para a curricularização da extensão e para a formação de estudantes comprometidos com a justiça social.
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