Entre fé, corpo e performance: o Círio de Nazaré como patrimônio imemorial e as negociações de gênero nas festas e rituais
DOI :
https://doi.org/10.22409/antropolitica2026.v58.i2.a69765Mots-clés :
Círio de Nazaré, Performance, Patrimônio imaterial, Gênero, Liminaridade.Résumé
Este artigo analisa o Círio de Nazaré e suas festividades associadas — como o Auto do Círio e a Festa da Chiquita — enquanto expressões de um patrimônio imemorial enraizado nas práticas corporais, performances rituais e dinâmicas de gênero que estruturam o campo festivo e devocional de Belém do Pará. A relevância do estudo consiste em compreender o Círio não apenas como manifestação religiosa, mas como espaço de criação simbólica e de reconhecimento da diversidade cultural e sexual. O objetivo é discutir como as experiências corporais e as negociações de gênero atravessam o evento, revelando seus potenciais de transformação e inclusão. Metodologicamente, a pesquisa adota uma abordagem antropológica e performativa, articulando observações etnográficas com referenciais teóricos sobre memória, liminaridade e performatividade, inspirados em autores como Victor Turner, Judith Butler e Paul Ricoeur. A análise das promessas corporais, do simbolismo da corda, dos percursos urbanos e das performances queers nas festas evidencia a complexa rede de afetos, corpos e identidades que sustentam o Círio. Conclui-se que as celebrações operam como zonas de liminaridade e communitas, nas quais fronteiras entre o sagrado e o profano, o masculino e o feminino, o popular e o institucional são continuamente negociadas. A vitalidade do Círio de Nazaré decorre, assim, de sua capacidade de acolher a diferença e de converter o patrimônio em experiência viva e compartilhada, contribuindo para políticas de salvaguarda mais sensíveis às diversidades corporais, culturais e de gênero.
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