Um ritual ressignificado: a escola entre provas
DOI:
https://doi.org/10.22409/antropolitica2026.v58.i1.a65040Palavras-chave:
Antropologia, Avaliações, Escolas, Rituais, Neoliberalismo.Resumo
Este artigo traz uma análise apoiada na Antropologia sobre as avaliações em larga escala em ambientes escolares, partindo do pressuposto de que as provas são eventos ritualizados dentro desses ambientes. Este tipo de trabalho é importante para aprofundar as discussões sobre Estado e Políticas Públicas sob o olhar do público assistido e/ou dos profissionais que as executam. Este estudo é parte de uma etnografia apresentada como tese de Doutorado, na qual foi realizada uma observação participante sistemática em uma escola pública de ensino médio do interior do Ceará, entre os anos de 2019 e 2022 — em que o foco maior de observação foi a preparação, aplicação e os desdobramentos de avaliações externas no lócus da pesquisa. O trabalho de campo, e a intersubjetividade que ele provoca, suscitou a revisão de literatura sobre conceitos como rituais e as gêneses e estruturas das avaliações em larga escala dentro e fora do Brasil, algo que leva ao cotejo de lógicas os campos da administração pública gerencial e do ensino escolar. Como alguns dos resultados, destaca-se a percepção das provas como momentos rituais típicos da cultura escolar e, por questões políticas e econômicas, elas têm sido utilizadas para avaliações de políticas públicas. Isso implica uma prova exógena, mais posicionada e identificada com o poder coercitivo e simbólico do Estado, em sobreposição e certa deslegitimação das provas endógenas, interferindo em papéis sociais e reforçando alguns costumes enraizados como os treinamentos de alunos para testes.
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