A polarização no Brasil contemporâneo: tendências, contratendências e tradições críticas modernas
DOI:
https://doi.org/10.22409/antropolitica2026.v58.i2.a69760Palavras-chave:
Polarização, Tradições críticas, Contratendências, Bolsonarismo, Evolução normativa.Resumo
O artigo propõe uma interpretação sociológica da polarização brasileira a partir de uma configuração empírica paradigmática: a coexistência e intensificação simultânea da Marcha para Jesus e da Parada do Orgulho LGBTQIA+ na cidade de São Paulo. Longe de constituir uma anomalia, essa simultaneidade exprime uma dinâmica mais geral: no Brasil contemporâneo, a ampliação de direitos e a intensificação das resistências não se sucedem no tempo, mas se produzem simultaneamente, alimentando-se reciprocamente. Para apreender esse fenômeno, o artigo mobiliza uma perspectiva morfológica inspirada em Durkheim, Bouglé, Mannheim e Elias, articulada às investigações desenvolvidas no Laboratório Interdisciplinar sobre Reflexividades. A hipótese central sustenta que as transformações estruturais da sociedade brasileira desde os anos 1960 — urbanização, expansão educacional, diversificação ocupacional e densificação comunicacional — produziram um terreno propício à emergência e difusão de tradições críticas modernas, orientadas à visibilização de sujeitos subalternizados, à desnaturalização de assimetrias, à mudança da sensibilidade moral e à expansão igualitária de direitos. A trajetória da Nova República é reinterpretada como um processo cumulativo de institucionalização desses influxos progressistas ao longo dos ciclos do Movimento Democrático Brasileiro, do Partido da Social Democracia Brasileira e do Partido dos Trabalhadores. O artigo argumenta, contudo, que esse processo engendra, como efeito imanente, suas próprias contratendências. AA partir da década de 2010, intensificam-se dinâmicas reativas que visam negar a especificidade dos sujeitos históricos, restaurar assimetrias desestabilizadas, ridicularizar a mudança da sensibilidade moral e tratar as gramáticas de direitos como privilégios, marcando a passagem de um conservadorismo de contenção para um neoconservadorismo de reação. O bolsonarismo é, assim, compreendido como produto endógeno dessa dinâmica: a organização da reação ou backlash que o frontlash estrutural engendra. Sua gramática contratendencial opera por reconversão sistemática das tradições críticas modernas negando sujeitos subalternizados, renaturalizando assimetrias, deslegitimando ou ridicularizando novas sensibilidades morais e convertendo novas gramáticas de direitos em privilégios indevidas, o que configura uma lógica estruturalmente homóloga à da crítica, porém orientada em sentido inverso.
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