Chamada de artigos
Tradução literária e representatividade
N. 73 - Março de 2027
As traduções literárias constituem, há muito tempo, um dos principais objetos de pesquisa no âmbito dos Estudos da Tradução e desempenham papel central na emergência e na consolidação dessa área acadêmica (Valdeón, 2018). Entretanto, em tempos recentes, têm sido (re)pensadas a partir de perspectivas que refletem novas frentes de reflexão do campo. Entre esses desdobramentos, tem ganhado força a consideração da tradução literária como espaço de representação e representatividade sob diferentes óticas, como mostram, por exemplo, Santos e Rodrigues (2025) e Kumar (2025). Diante disso, este dossiê tem como objetivo reunir contribuições que discutam como traduções literárias podem participar dos processos de representação, visibilizando ou invisibilizando diferentes grupos.
Da virada cultural dos Estudos da Tradução, consolidada nos anos 1980, às perspectivas pós-coloniais e de gênero desenvolvidas na década seguinte, a tradução passa a ser investigada como prática cultural situada, marcada por relações de poder e ideologia (Snell-Hornby, 2006). Como ato de leitura íntima (Spivak, 1993), forma de reparação (Bandia, 2008), processo de reescrita (Bassnett, 2011) ou gesto de resistência e ativismo (Tymoczko, 2010), a tradução intervém nos conflitos sociais (Baker, 2019). Especialmente no terreno das literaturas afrodiaspóricas, pode constituir uma práxis teórico-política (Carrascosa, 2016), com potencial crítico para o enfrentamento do racismo estrutural (Keene, 2016), participando ativamente da produção de sentidos e estruturas raciais e desestabilizando a noção de neutralidade da mediação linguística (Tachtiris, 2024).
Nesse cenário, em que a tradução literária eclode como espaço de agência poética e política, são bem-vindos artigos que abordem a tradução literária em intersecção com questões de raça, identidade e gênero, bem como aspectos relacionados à representação de variedades linguísticas minoritárias, à ética da tradução e aos estudos do tradutor, entre outros eixos, examinando as formas pelas quais a tradução literária pode contribuir para a (in)visibilização das pluralidades inscritas nos (con)textos de partida e de circulação.
Espera-se que as contribuições submetidas considerem a representatividade na tradução literária a partir de diferentes perspectivas teóricas dos Estudos da Tradução e de campos afins. Assim, estudos tradutórios de cunho historiográfico, descritivista, funcionalista e semiótico, entre outros, bem como abordagens em diálogo com perspectivas sociolinguísticas, socioculturais, decoloniais, afrodiaspóricas e outras formulações críticas da tradução, serão acolhidos em um esforço para contemplar diferentes modos de compreender a representatividade em traduções literárias produzidas em e para distintos contextos, propondo novas percepções sobre um dos objetos de maior interesse dos Estudos da Tradução.
Organização:
Vanessa Lopes Lourenço Hanes (UFF)
Felipe Fanuel Xavier Rodrigues (UERJ)
As contribuições, redigidas em português, inglês ou espanhol, devem ser enviadas até 18 de outubro de 2026 e estarão sujeitas a um processo de revisão duplo-cega.
Confira as normas para submissão.
Referências
BAKER, Mona. Translation and conflict: a narrative account. 2. ed. New York: Routledge, 2019.
BANDIA, Paul F. Translation as reparation: writing and translation in postcolonial Africa. Manchester: St. Jerome, 2008.
BASSNETT, Susan. Reflections on translation. Bristol: Multilingual Matters, 2011.
CARRASCOSA, Denise. Traduzindo no Atlântico Negro: por uma práxis teórico-política de tradução entre literaturas afrodiaspóricas. Cadernos de Literatura em Tradução, São Paulo, n. 16, p. 63-71, 2016.
KEENE, John. Translating Poetry, Translating Blackness. Poetry Foundation. Disponível em <https://www.poetryfoundation.org/harriet-books/2016/04/translating-poetry-translating-blackness>. Acesso em: 07 fev. 2022.
KUMAR, Umesh. Translating violence in India: literary representations and the cartography of gender-based violence. Cadernos de Tradução, Florianópolis, v. 45, n. esp. 1, e105456, 2025.
SANTOS, Gleide de Paula; RODRIGUES, Maria Aparecida. Representatividade das produções minoritárias: percursos e desafios no cenário internacional. Tabuleiro de Letras, v. 19, n. 2, p. 304-314, 2026.
SNELL-HORNBY, Mary. The turns of Translation Studies: new paradigms or shifting viewpoints? Amsterdam; Philadelphia: John Benjamins, 2006.
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Outside in the teaching machine. New York: Routledge, 1993.
TACHTIRIS, Corine. Translation and race. New York: Routledge, 2024.
TYMOCZKO, Maria. Translation, resistance, activism: an overview. In: TYMOCZKO, Maria (ed.). Translation, resistance, activism. Amherst: University of Massachusetts Press, 2010. p. 1-22.
VALDEÓN, Roberto A. Topics and concepts in literary translation. Perspectives: Studies in Translation Theory and Practice, v. 26, n. 4, p. 459-462, 2018.




