Narrativas da deficiência
questões acerca da escrita acadêmica partir da experiência
DOI:
https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v15i29.66795Palavras-chave:
Narrativa, Deficiência, Escrita acadêmica, Experiência, CapacitismoResumo
As narrativas acadêmicas e não acadêmicas sobre pessoas com diferentes tipos de deficiência são ainda fortemente marcadas pelas ideias de falta e de déficit. O apagamento das narrativas produzidas a partir da experiência da deficiência, tanto no campo da cultura quanto nas produções acadêmicas, aponta que a sociedade valoriza determinadas experiências, consideradas normais, em detrimento de outras. O capacitismo ainda predomina em grande parte das pesquisas sobre deficiências. O objetivo do presente artigo é discutir o problema das narrativas pautadas na experiência da deficiência. A narrativa da escrita acadêmica ganha destaque na discussão, bem como a possibilidade do acesso à experiência por meio da composição de diferentes pessoas que pesquisam, com e sem deficiência. O artigo analisa questões teóricas, metodológicas, éticas e políticas da pesquisa em torno da deficiência, por meio da discussão do problema do capacitismo acadêmico e da corponormatividade compulsória. Num primeiro momento, aborda aspectos do percurso de pesquisa das autoras na condição de pesquisadoras videntes fazendo pesquisa com pessoas cegas. Partindo da política metodológica do PesquisarCOM, a pessoa com deficiência é considerada um sujeito ativo com o qual se faz pesquisa e não um objeto de pesquisa. Nessa direção, discute-se o uso de entrevistas de explicitação e as condições criadas para favorecer a produção da fala encarnada, de dentro da experiência dos entrevistados. Num segundo momento, a partir do surgimento da experiência da deficiência física de uma das pesquisadoras, o estudo analisa metodologias de escrita acadêmica de base feminista, em autoras como Rosemarie Garland-Thomson, Djamila Ribeiro e Stacy Simplican. Concluímos que, embora haja uma lacuna entre o modo de acesso à experiência, é frutífera a composição de recursos de pesquisadoras com e sem deficiência para a escrita acadêmica. Em ambos os casos, é fundamental criar condições para a produção de narrativas a partir da experiência da deficiência. É importante não homogeneizar as narrativas e apostar na potência do encontro de diferenças, sempre buscando articulações não-hierárquicas e não-capacitistas entre pessoas com e sem deficiência.
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