Vol. 28 No. 1 (2026): Confluências, vol. 28, nº 1
Com alegria, entregamos ao público mais uma edição da Confluências. Esta edição é especialmente representativa dos dois eixos inter e transdisciplinares que caracterizam a publicação: um eixo que podemos chamar de horizontal e um vertical.
Horizontalmente, Confluências passeia por diferentes tipos de textos acadêmicos. A presença de uma entrevista, uma tradução e uma resenha, ao lado de sete artigos acadêmicos, oferece ao(à) leitor(a) uma diversidade de acesso e engajamento com o conteúdo. Diferentes tipos de texto convidam a diferentes maneiras de dialogar com o conhecimento acadêmico — diversidade essencial para que ele avance.
Verticalmente, nossa revista passeia por uma vasta gama de temas, métodos e formas de colocar campos do conhecimento para dialogar. Embora o foco seja, como de costume, o diálogo inter e transdisciplinar entre sociologia e direito, o conjunto de tópicos e subtópicos dentro desse espectro é tão vasto quanto profundo.
A abertura fica por conta da entrevista com Oscar Horta (Universidade de Santiago de Compostela), um dos mais influentes filósofos contemporâneos da ética animal, conduzida por Evelym Pipas Morgado e Rafael van Erven Ludolf. A conversa percorre conceitos centrais do pensamento do entrevistado — especismo, consideração moral dos animais — e avança para um território ainda pouco explorado: as implicações da inteligência artificial para a vida dos animais, isto é, os modos pelos quais tecnologias emergentes podem transformar, para melhor ou para pior, nossa relação com os demais seres sencientes.
Dialoga diretamente com essa abertura a tradução de "Futuros multiespécie: um manifesto a partir do Sul diante do Antropoceno capitalista", de Berenice Vargas García e David Varela Trejo, vertida ao português por Anna Carolina Cunha Pinto, Yan Gardson da Cruz Costa e Luiza Alves Chaves. Escrito a partir do Sul global — e em contraponto às narrativas hegemônicas sobre o Antropoceno —, o manifesto convida a imaginar futuros compartilhados entre humanos e não humanos, deslocando o eixo da crítica ambiental para as relações entre capitalismo, colonialidade e vida multiespécie.
Completa o conjunto de textos não convencionais a resenha de Mariana de Freitas Barros Souza, dedicada ao trabalho digital e às novas formas de exploração no capitalismo contemporâneo, com atenção às plataformas, à logística e às resistências que trabalhadoras e trabalhadores constroem nesses novos arranjos produtivos.
Os sete artigos que integram a edição confirmam a amplitude vertical de que falamos acima. Natasha Gomes Moreira Abreu e Luciana Gonçalves Tibiriçá analisam o rompimento da barragem de Fundão à luz do direito internacional dos direitos humanos, recolocando um dos maiores desastres socioambientais da história brasileira no plano de responsabilidades que ultrapassam as fronteiras nacionais. Em seguida, Dennys Robson Girardi, Viviane Coêlho de Séllos-Knoerr, Carlos Alberto Simões de Tomaz e Thiago Rocha da Cunha voltam-se à obra de Carolina de Jesus para pensar fome, moradia e expressão como elementos de uma "mística da sobrevivência" — e, mais que isso, como fundamento de uma epistemologia de fronteira que interpela a teoria dos direitos humanos a partir da experiência de quem vive à margem.
Três artigos formam, na sequência, um núcleo dedicado às relações entre gênero, Estado e democracia. Renata Lourenço Batista e Carlos Valpassos investigam, por meio de um estudo de caso em Campos dos Goytacazes (RJ), o direito à creche como política pública de apoio à maternidade — tema em que a promessa constitucional e a realidade das famílias nem sempre coincidem. Luciano Athayde Chaves e Giovana Costa Leiros Dias examinam a fraude às cotas eleitorais de gênero, argumentando que a burla a esse mecanismo constitui obstáculo à realização de uma democracia substantiva, isto é, de uma democracia que vá além da igualdade meramente formal de participação. E Luizza Milczanowski Julianelli e Luiz Eduardo Figueira discutem os direitos reprodutivos e a gestão estatal sobre o corpo das mulheres, tomando como objeto a lei do planejamento familiar e a disciplina jurídica da esterilização cirúrgica.
Erika Neder dos Santos propõe, então, um "horizonte inclusivo": uma reflexão sobre o papel transformador das pessoas com deficiência na sociedade, que desloca essas pessoas da posição de destinatárias passivas de políticas para a de agentes de mudança social. Fecham a edição Pablo Pedrosa e Deborah Dettmam, que articulam constitucionalismo e a ideia de um processo civilizador tributário para analisar criticamente o que denominam a liberação da moral elisiva pelo Supremo Tribunal Federal — colocando, assim, a jurisprudência constitucional tributária em diálogo com categorias da sociologia histórica.
Esperamos que o(a) leitor(a) tenha tanto júbilo em ler esta edição quanto nossa equipe teve em reunir material tão instigante.
Boa leitura!
João Pedro Chaves Valladares Pádua e equipe editorial.




