Edições anteriores

  • Fascismos e novas direitas
    n. 33 (2020)

    Em um contexto de crescimento de movimentos de extrema-direita pelo globo, as temáticas dos fascismos e das novas direitas vêm ganhando cada vez mais destaque e relevância nos debates acadêmicos.  Seria o fascismo uma atitude desviante? Uma doença? Uma anomalia do sistema? Um retorno nostálgico a um passado "glorioso"? Além disso, seriam todas as direitas mais radicais, fascistas? Esta discussão foi objeto de grandes nomes dentro da historiografia e das ciências humanas e sociais, como Leandro Konder, Daniel Guerin, Ian Kershaw, William Reich, Antônio Gramsci, Umberto Eco, Hannah Arendt, Robert Paxtone e até mesmo, José Carlos Mariátegui. Cada um, a partir de diferentes abordagens –aproximadas ou discordantes –, elaboraram as suas perspectivas muitas vezes ancorados nas questões anteriormente apontadas.

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    O dossiê Fascismos e Novas direitas, nesta edição da Revista Cantareira, nasceu em meio à pandemia do coronavírus (COVID-19), uma crise sanitária internacional que,  no contexto brasileiro, ganha o reforço de um Estado suicidário, para fazer menção às palavras de Vladimir Safatle. Como em outros governos – que vêm demonstrando uma preocupação desproporcional com a Economia –, o Brasil pretere a vida humana em nome de uma pretensa preocupação com os números.  O intuito, portanto, é contribuir com a análise de acontecimentos recentes, discussões teóricas pertinentes e recuperação histórica das ciências humanas em geral, essenciais para a compreensão crítica do mundo em que vivemos.  Através das ilações dos nossos autores, percebemos que não somente há um avanço fascista na política mundial, mas um intento de consolidar uma narrativa conservadora sobre a sociedade civil e a política, bem como das organizações alternativas mais conservadoras. Estes aspectos não são uma novidade do século XXI; tampouco, algo exclusivo ao século passado. 

  • Ideias e práticas econômicas no mundo atlântico: liberdade, circulação e contradições entre os séculos XVII e XIX
    n. 32 (2020)

    Ao cruzarem o Atlântico, as ideias econômicas formuladas no continente europeu encontraram diferentes formas de recepção nos séculos que constituem a transição da modernidade para a contemporaneidade, ou no que alguns teóricos chamam “longo século XVIII” (Maxwell, 1999; Arrighi, 1994). Essas ideias difusas, que posteriormente seriam aglutinadas em conceitos homogeneizantes, como “liberalismo” e “mercantilismo” (Pincus, 2012), fundamentaram as práticas econômicas e políticas do cenário colonial e da posterior formação dos estados independentes no continente americano.

    Especialmente no que diz respeito às ideias de liberdade humana e comercial, emergiu um pronunciado contraste com o contexto social americano, obrigando a reflexões e práticas próprias, diferentes das europeias (Losurdo, 2006). Nesse sentido, vemos no norte homens como Thomas Jefferson, grandes porta-vozes da liberdade que possuíam escravos, trocando cartas sobre como resolver as contradições que se tornavam cada vez mais difíceis de ignorar (Morgan, 2000).

    No mundo ibero-americano, um olhar mais atento demonstra a ineficácia do termo “mercantilismo” como descrição única da realidade. Nesse contexto, vemos o influente dom Luís da Cunha escrever ao marquês de Abrantes: “Beijo infinitamente as mãos de Vossa Excelência [...] a saber que eu suponho ser-nos conveniente e útil o livre comércio com os holandeses na costa da África…”. A carta, escrita em 1728, demonstra a interessante e tensa coexistência de práticas típicas do Antigo Regime com ideias de liberdade e problematiza a visão de um mundo ibero-americano atrasado, que seria alcançado por essas ideias somente a partir da Revolução Francesa (Furtado, 2014).

    Como se sabe, aparentes contradições históricas são, na verdade, evidências de um conhecimento insuficiente, convidando, portanto, o olhar mais atento do historiador. No caso da circulação e da aplicação das ideias econômicas no mundo atlântico, o tema pode ser melhor explorado a partir de diversos aportes teórico-metodológicos. Sendo um tema por natureza desprovido de recorte geográfico, visto que se concentra na circulação de ideias e práticas, é fácil concluir que pode ser tratado a partir do campo da História Global, seja a partir da perspectiva das connected histories (Subrahmanyam, 1997; Conrad, 2016) ou da dos Sistemas-Mundo (Wallerstein, 1974), embora esta última seja menos útil para apreender a circulação de ideias do que a de práticas.

    Para o estudo da circulação de ideias, nenhuma abordagem parece ser mais promissora que a da Escola de Cambridge, definida como “ideias em contexto” por seu maior representante, Quentin Skinner. Através da comparação e da exploração das contradições e das discussões de época, essa escola captou as diferentes acepções relacionadas a termos excessivamente repetidos nas discussões políticas, como “estado”. Como resultado, identificaram a completa ausência de modelos prontos a serem aplicados nos centros de tomada de decisão e que, portanto, pudessem ser repetidos pelos historiadores como descrição da realidade estudada (Skinner, 1969).

    Assim, não há nada que faça crer que essa perspectiva não possa ser adotada para as ideias econômicas. A perspectiva, aliás, é muito parecida com a de Steven Pincus, – ainda que esse historiador não reivindique associação a essa abordagem – , ao propor uma revisão do “mercantilismo” explorando as discussões no interior dos centros de tomada de decisão.

    São diversas as formas de tratamento que podem ser dadas a esse tema urgente, apontadas aqui apenas algumas poucas. Por sua relativa novidade, espera-se que o Dossiê seja marcado não pela predominância de uma delas, mas pela pluralidade de abordagens teóricas e metodológicas. O resultado certamente será o do conhecimento mais aprofundado da racionalidade econômica no mundo atlântico, escapando das definições homogeneizantes de “liberalismo”, mais aplicada para os espaços ao norte, “mercantilismo”, que descreveria melhor os espaços do sul.

    Explorar os diversos caminhos da tradição liberal ao longo do tempo é um exercício de compreender o mundo em que vivemos. De forma paralela e oposta, é possível perceber ainda os diversos caminhos históricos de outra tradição, apologética do papel do Estado como mediador, igualmente importante para compreender a constituição do capitalismo tal como o conhecemos hoje. Convidamos os historiadores interessados a mergulhar nesse grande problema histórico.

  • O esporte em tempos de exceção: práticas desportivas e ações políticas durante as ditaduras na América Latina no século XX
    n. 31 (2019)

    Sem abrir mão da interdisciplinaridade, o presente dossiê procura analisar os estudos sobre o esporte – e, de forma mais específica, sobre o futebol – existentes em tempos de exceção, durante as ditaduras na América Latina, no século XX. A história do esporte já superou a ideia de que seu campo de estudo pertencia, primordialmente, aos profissionais ligados exclusivamente à sua prática ou ao estudo delas, como os atletas e profissionais da educação física. O presente dossiê, nesse sentido, compreende o esforço de estimular e reunir trabalhos que trazem reflexões sobre a diversidade cultural de um fenômeno que, cada vez mais, requer diferentes campos de saberes para sua a compreensão. Antropólogos, sociólogos e posteriormente historiadores vêm, pelos menos desde a década de 1970, debruçando pesquisas sobre as práticas esportivas e suas ações culturais e políticas, bem como a maneira como essas ações se relacionam com o momento político vivido.